Um pouco da história da cavalaria

Ten Cel Cav Nilson Vieira Ferreira de Mello

É provável que o combatente montado tenha surgido como resposta à conveniência de se obter uma posição dominante sobre o adversário, na luta corpo a corpo. Essa categoria especial de guerreiros, utilizando elefantes, camelos, carros de guerra ou cavalos, adquiriu, a par da vantagem da dominância, extraordinária mobilidade e potência de choque.

Estavam assim delineadas as características que iriam propiciar o surgimento e o desenvolvimento da cavalaria como Arma.

É curioso notar que o termo “Cavalaria” não deriva – segundo afirmam abalizados pesquisadores – do vocábulo “cavalo”. Este animal era chamado pelos romanos de “aequidus”. Cavalaria viria de “cava”, espécie de lança longa com que eram armados os guerreiros que combatiam montados. Com a vulgarização do equídeo como meio de condução daqueles guerreiros, o próprio animal teria passado a chamar cavalo e as formações de combatentes montados, de cavalaria.

Na Antigüidade, desenvolveu-se o emprego de massas de combatentes a cavalo com base nas características originais de mobilidade e potência de choque. Há alguns exemplos notáveis do emprego judicioso da Cavalaria nesse período histórico, como a batalha de Canae (216 AC). Aníbal, comandante cartaginês, não obstante sua flagrante inferioridade numérica face aos romanos de Varro (50.000 para 70.000), soube aproveitar suas frações de Cavalaria, comandadas por Asdrubal e Maharbal, para envolver e aniquilar o inimigo, logrando estrondosa vitória. Basta dizer que, ao final da batalha, os romanos tiveram 48. 000 mortos e 13.000 prisioneiros, contra a  perda de 6.000 cartagineses.

Na Idade Média a arte militar definhou. Conquanto a história registre algumas campanhas de vulto, coma as Cruzadas e a Guerra dos Cem Anos, a batalha perdeu suas características de entrechoque de massas organizadas, acionadas por um Comando. A manobra, as preocupações táticas e o exercício da liderança não prevaleciam nos duelos – séries de combates individuais – nos quais os requisitos fundamentais eram a bravura e a destreza. Foi todavia, uma era de absoluta predominância do cavaleiro na guerra, até que um fato novo viesse a modificar o panorama dos combates.

Tal fato ocorreu com o surgimento da bombarda, ancestral do canhão, na batalha de Crécy (1346), durante a Guerra dos Cem Anos. O fato novo, mais do que a eficácia do tiro daquele engenho rudimentar, determinou a dizimação da Cavalaria francesa diante dos quadrados da Infantaria inglesa. Crécy foi o túmulo de 1.200 nobre cavaleiros franceses, sucumbidos debaixo dos virotões dos arqueiros ingleses. A galharda confiança dos nobres de armadura e lança abalou-se com a possibilidade de serem derrubados de suas montadas pelo impacto de simples bolas de ferro, ficando à mercê do mais humilde besteiro.

A reação da Cavalaria francesa foi no sentido de apear para combater, E é assim que, na batalha de Poitiers (1356), ainda na mesma campanha dos Cem Anos, apeia diante da Cavalaria inglesa, julgando estar aproveitando a experiência dolorosamente colhida 10 anos antes. O resultado foi nova e fragorosa derrota, ocasionando a captura de seu rei, João III, o Bom, pelo Príncipe Negro, filho de Eduardo III e assim conhecido pela cor da armadura que normalmente usava.

Estava assim criada a primeira dúvida sobre o emprego de uma Arma que, até então, movimentara-se com absoluto desembaraço no campo de batalha.

Mas, a Guerra dos Cem Anos não iria terminar sem antes se restabelecer a forma adequada de emprego das massas de Cavalaria. Curiosamente, foi uma jovem camponesa de Domrémy, na Lorena, quem iria oferecer os ensinamentos corretos para a utilização das massas de combates montados. Joana d’Arc, de apenas 20 anos de idade, mostrou que, se era temerário carregar contra o inimigo abrigado, era ainda mais insensato apear diante de suas formações a cavalo Iluminada pela fé e exaltada pelo sentimento de libertar sua pátria da invasão inglesa, essa donzela conseguiu levantar o cerco de Orleans e conduzir Carlos VII à sagração em Reims (1429), através de vitórias colhidas, ora carregando contra o inimigo em campo raso, ora combatendo palmo a palmo contra posig6es fortificadas.

Com o passar do tempo, aperfeiçoou-se o armamento e firmou-se a importância do fogo no campo de batalha. Não obstante, havia cavaleiros que insistiam em apresentar-se nos combates em elegantes formações de parada. Julgavam a bala traiçoeira, pois era, muitas vezes, disparada por mãos covardes que não ousariam enfrentar, de perto, os que feriam. Tal procedimento comprometia a credibilidade da Cavalaria como instrumento da vitória e iria, em breve, determinar nova revisão do seu emprego.

De novo a reação que se seguiu pecou pelo exagero. Impressionada com a importância do logo no combate, a Cavalaria jogou fora suas lanças e armou-se de pistolas. Os Esquadrões, antes impetuosamente lançados ao “entrevero”, passaram a “marchar” para o inimigo, executando uma bizarra manobra denominada de “o caracol”. Essa espécie de “carrossel” consistia em dispor os esquadrões em linhas sucessivas de sorte que, ao aproximar-se a primeira do adversário à distância do tiro de pistola, os cavaleiros disparavam suas armas e infletiam a direita e a esquerda, deixando o campo livre à segunda. O processo prosseguia até alcançar-se suficiente desorganização do dispositivo inimigo que permitisse o assalto final a fio de espada.

È óbvio que essas descargas de pistola não causavam o efeito desejado, ao passo que o prolongado desfilar de cavaleiros diante do adversário ocasionava mais baixas do que a carga fulminante. De qualquer forma, representava um abandono da mobilidade da Arma que fazia definhar o espírito tradicionalmente ofensivo dos cavalarianos.

O verdadeiro papel da Cavalaria na batalha foi restaurado durante a guerra dos Trinta Anos, através de um rasgo de audácia de um jovem general. Na batalha de Rocroi (1643), o Príncipe Condé, diante de uma situação desesperada, lançou seus esquadrões sobre as alas e a retaguarda do dispositivo do inimigo, destroçando o escol da infantaria espanhola.

A partir de então, tendo se reencontrado com suas missões caraterísticas de Arma móvel e fadada às ações decisivas, a Cavalaria mantém seu lugar no campo de batalha, a despeito do fogo. Afinal compreenderam os Chefes militares que, se explorassem convenientemente sua mobilidade, sua passagem na zona dos tiros eficazes do inimigo era extremamente curta, nunca superior a dois ou três minutos. E quando ela entrava nessa zona, a ameaça que representava já era tão próxima que o inimigo freqüentemente decidia-se a fugir sem atirar.

Durante o último quartel do século XVII e todo o século XVIII a Cavalaria conservou integralmente sua mobilidade e capacidade manobreira, a despeito do fogo. Este, aliás, não atingia grande profundidade no campo de batalha; mesmo durante a fase áurea de Napoleão, o alcance dos canhões era de 400 metros e dos fuzis 200 metros. Não obstante, não se negava mais a importância do fogo no combate. A manobra, bem coma a carga e o assalto, eram etapas na busca da vitória, porém sempre acompanhadas do necessário apoio dos tiros das armas de todos as calibres.

Mas, à medida que o combate frontal tornava-se mais perigoso, devido à saturação do fogo no campo de batalha, a manobra de ala, em busca dos flancos e da retaguarda do inimigo, crescia de importância. Essa concepção da guerra, na qual Napoleão foi mestre insuperável, favorecia o emprego da Cavalaria.

E o grande gênio militar soube explorar magistralmente as inúmeras possibilidades da Arma do movimento, em todas as fases da batalha. Constituindo grandes massas de Cavalaria, empregava-as em miss6es de exploração e segurança, de forma a conhecer as intenções do adversário e prover-se da indispensável liberdade para tomar seu próprio dispositivo. Durante a batalha, fixava o inimigo e o desgastava para, com seus dragões, couraceiros e hussardos, envolvê-lo e desorganizá-lo, obrigando-o a empenhar suas reservas. Ao primeiro sinal de perda de capacidade de reação do adversário, dirigia o esforço decisivo para o ponto de ruptura e culminava a batalha com tenaz perseguição de sua adestrada Cavalaria. Assim foi em Austerlitz, Iena e Wagram, estrelas de primeira grandeza na refulgente constelação de vitórias do grande General.

Todavia, o Imperador não se descuidava de dotar tão precioso instrumento de sua glória de um adequado poder de logo; ao contrário, dotou seus esquadrões de mosquetões e somente os lançava ao “entreveiro” decisivo depois de conveniente amaciamento pelo fogo.

Após esse período áureo da Cavalaria, nova crise se apresentaria com o aparecimento da arma raiada e do canhão de retrocarga. Com o aumento da precisão e da rapidez do tiro, a Arma do movimento novamente iria se deixar dominar por uma exagerada preocupação com a segurança. No início da guerra Franco-Prussiana de 1870, a Cavalaria colocou-se frequentemente muito próxima da Infantaria, quando não a reboque desta.

Essa Ietargia vai ser sacudida, pouco depois, pela Cavalaria alemã, em Metz. O 3.° Corpo germânico, reduzido a poucos recursos e frente aos franceses mais numerosos e vantajosamente dispostos, via aproximar-se o seu fim. Nessas condições trágicas, o General Alvensleben decidiu empregar arrojadamente a Brigada de Cavalaria Bredow. Esta GU, perfeitamente coberta das vistas do inimigo, iniciou um movimento desbordante e caiu, de surpresa, sobre a infantaria e as baterias francesas, derrotando-as numa fulminante carga, bem no estilo tradicional.

Essa ação restituiu aos cavalarianos o sentimento das possibilidades de sua Arma, até que nova crise, resultante do aparecimento da arma automática, viesse a suscitar outras dúvidas sobre o seu emprego.

Durante o período que medeou entre 1871 e 1914, os exércitos, particularmente os europeus, prepararam-se para aproveitar as possibilidades que se abriam com os novos armamentos. Alguns cavalarianos, embalados pelas glórias do passado, de novo relutaram em admitir a necessidade de introduzir modificações substanciais no emprego da Arma montada. E, imbuídos do espírito do século anterior, saltaram alegremente a cavalo quando irrompeu a 1ª Guerra Mundial, em agosto de 1914, ansiosos para reeditar as cargas do passado.

Porem, outro era o campo de batalha onde estrugia o arrebentamento das granadas e o matraquear da metralha. Até mesmo a infantaria, menos vulnerável ao fogo das armas de tiro tenso, mergulhou nas profundezas das trincheiras que se estendiam dos Vosges ao Mar do Norte.

De um lado e do outro de um contínuo e intrincado sistemas fossos, valas, túneis e rolos de arame farpado, os exércitos se mantinham estáticos, tendo de permeio uma faixa de terreno a “terra de ninguém” – constantemente batida pelo logo.

Neste cenário desolador, pouco havia para fazer com uma Arma de vocação manobreira. E eis a Cavalaria combatendo como infantaria, cavando trincheira, lançando granadas e batendo-se à baioneta. Para isso, foi sendo dotada de armamento mais pesado, incorporando às suas unidades frações de petrechos e de sapadores. Mas, nostálgica de suas verdadeiras missões, empenhava-se em patrulhas, alongava-se em reconhecimentos e provia segurança, toda vez que se apresentava oportunidade.

Ainda durante o primeiro conflito mundial, surgiria um engenho que, progressivamente, iria restaurar a preponderância da guerra de movimento. O carro de combate transformar-se-ia no instrumento que devolveria a mobilidade e o poder de choque à cavalaria.

Até o deflagrar do conflito de 1939 – 1945, os cavalarianos de diversos exércitos do mundo iriam oscilar entre preservar a cavalaria dotada de seu meio tradicional de combate – o cavalo – ou tender para a sua total mecanização. Os grandes estudiosos da guerra, porém, de pronto vislumbraram nos blindados os herdeiros e continuadores naturais da gloriosa Cavalaria.

Conquanto no decurso da 2.a Guerra Mundial ainda se registra-se o emprego de massas de combatentes montados, organizadas em GU, principalmente pelos poloneses e russos, o aperfeiçoamento dos carros de combate iria conduzir à sua predominância no campo de batalha moderno.

E se foi banido do combate o cavalo, nobre e fiel amigo de tantas e tão memoráveis campanhas, não desapareceu a Cavalaria, rediviva nas formações de blindados que restauraram seu poder choque e aumentaram seu poder de fogo e sua mobilidade.

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