BANDEIROLAS DAS LANÇAS DA CAVALARIA PORTUGUESA, DESDE O SÉCULO XIX

JOSÉ J. X. SOBRAL

A lança, como arma de cavalaria, é utilizada desde a antiguidade. Sendo uma das principais armas da cavalaria medieval, a lança cairá em desuso, na maioria dos exércitos europeus, a partir do século XVI. A lança manteve-se, contudo, em utilização por algumas forças de cavalaria do leste da Europa, como as polacas e as cossacas.

A partir de meados do século XVIII, alguns exércitos ocidentais optam por reviver a lança como arma de cavalaria, criando unidades assim armadas, normalmente constituídas por soldados recrutados na Europa de Leste. Assim, por exemplo, a Prússia, a Áustria e a França criam regimentos de ulanos, constituídos por lanceiros polacos. Os lanceiros irão alcançar grande prestígio ao serviço dos exércitos napoleónicos. Os regimentos de lanceiros polacos da Legião do Vístula ao serviço de Napoleão, irão cobrir-se de glória nas campanhas da Alemanha e da Península Ibérica, demonstrando a eficiência daquele tipo de cavalaria. No final e a seguir às guerras napoleónicas, grande parte dos exércitos ocidentais irá criar unidades de lanceiros, seguindo o modelo polaco, em termos de tática, armamento e uniformes – quase todas as unidades de lanceiros, por exemplo, adoptaram a czapka, cobertura de cabeça militar típica da Polónia.

O Exército Português tomou contacto directo com os lanceiros polacos de Napoleão, quando os teve que enfrentar em combate, durante a Guerra Peninsular. Pouco depois, o Exército Português irá enfrentar os gaúchos armados com lanças do exército de Artigas, na então Cisplatina (hoje Uruguai). Apesar das tropas portugueses terem derrotado tanto os lanceiros polacos como os gaúchos, a sua prestação militar impressionou-os, levando-os ao desejo da criação de unidades desse género. A primeira unidade portuguesa de lanceiros irá, no entanto, apenas ser criada durante a Guerra Civil entre Liberais e Miguelistas. Através da Ordem do Dia de 7 de Fevereiro de 1833, o Quartel-General Imperial do Exército Liberal cria o Regimento de Lanceiros da Rainha. Sendo comandada pelo coronel britânico Anthony Bacon e constituída, essencialmente, por ingleses e outros estrangeiros, esta unidade segue de perto o modelo dos lanceiros do Exército Britânico – nomeadamente do seu 17th Regiment of Lancers, ao qual havia pertencido Bacon e do qual adopta a divisa e o emblema. Para enfrentar os liberais, o exército miguelista irá também criar os seus próprios esquadrões de lanceiros. Depois da vitória liberal, o Exército Português incluirá, a partir de 1834, dois regimentos de lanceiros, um dos quais – o Regimento de Lanceiros nº 2 – ainda existente. Além de ser usada pelos dois regimentos de lanceiros, a lança irá também armar algumas unidades de cavalaria do Ultramar e a cavalaria da Guarda Nacional Republicana.

Como arma operacional a lança irá ser usada, pela cavalaria da maioria dos exércitos ocidentais até ao final da Primeira Guerra Mundial. A partir de então, será retirada ou manter-se-há, apenas como arma cerimonial. Com uso cerimonial, por, exemplo, é ainda usada pelos militares do Regimento de Lanceiros nº 2 do Exército Português e pela cavalaria da Guarda Nacional Republicana.

Na Idade Média, as lanças de cavalaria eram ornamentadas com pequenas bandeiras (bandeirolas), normalmente, triangulares ou farpadas, colocadas na haste, sob a base da ponta, ostentando cores e emblemas heráldicos associados aos cavaleiros que as portavam. As bandeirolas das lanças serviam tanto de distintivo – identificando o seu portador – como para impressionar o adversário – dando a impressão de pequenas chamas. O uso de bandeirolas nas lanças militares manteve-se, transformando-se, mais tarde, numa mera forma de decoração.

Bandeirola de lança de cavalaria portuguesa (1833 – 1890)
Bandeirola de lança de cavalaria portuguesa (1890 – 1901)
Bandeirola de lança de cavalaria portuguesa (1901 – actualidade)
Bandeirola de lança de cavalaria portuguesa (variante usada pelo RL2 a partir da década de 1980)

A origem polaca dos lanceiros napoleónicos está, provavelmente, na origem do facto, do vermelho e do branco terem sido adoptadas como as cores das suas bandeirolas. Estas duas cores irão também ser usadas nas bandeirolas de unidade de lanceiros de outros países. Conforme o país, as todas as bandeirolas terão a mesma ordenação – incluindo, ou não, as cores nacionais – ou irão variar de unidade para unidade, servindo para as identificar individualmente.

No final do século XIX e início do século XX, alguns exemplos de cores usadas pelas unidades de lanceiros de vários países estrangeiros, eram as seguintes:

PaísOrdenação e cores
Austro-Húngaro (Império)Cortado, de negro e amarelo
BadeCortado, de vermelho e amarelo
BavieraCortado, de branco e azul claro
BélgicaCortado, de vermelho e negro, com um triângulo amarelo cuja base coincide com a  tralha
BrasilCortado, de vermelho e branco
Britânico (Império)Cortado, de vermelho e branco
EspanhaCortado, de vermelho e amarelo
FrançaCortado, de vermelho e branco
ItáliaDe azul, pleno
MéxicoCortado, de branco e vermelho
OldemburgoCortado, de vermelho e azul
Países BaixosCortado, de laranja e branco
PrússiaCortado, de branco e preto
SaxóniaCortado, de branco e verde
RússiaCores variáveis (cores regimentais)
RoméniaCortado, de cor variável (cor regimental) e vermelho
TurquiaDe vermelho, pleno
VurtembergaCortado, de vermelho e negro

Tal como em outros aspectos, as unidades de lanceiros introduzidas em Portugal, a partir de 1833, seguiram o modelo britânico, adoptando bandeirolas bipartidas de vermelho e branco. Todas as unidades de lanceiros do Exército usavam o mesmo modelo de bandeirola. As cores vermelho e branco forma usadas até 1890.

Por decreto de 6 de Março de 1890, as bandeirolas passaram a ostentar as cores nacionais, sendo bipartidas de azul e branco.

Finalmente, o decreto de 17 de Maio de 1901, voltou a alterar as cores das bandeirolas, que passaram a ser de uma única cor, o vermelho, mantendo-se assim, até hoje. Além das unidades do Exército, as bandeirolas vermelhas também passaram a ser usadas nas lanças das unidades de cavalaria da Guarda Nacional Republicana. Na década de 1980, as bandeirolas do Regimento de Lanceiros nº 2 passaram a ostentar uma caveira sobre duas tíbias cruzadas – emblema tradicional do regimento – no cantão superior direito.

Fontes consultadas

  • SALES, Ernesto Pereira, Bandeiras Regimentaes do Exército e da Armada e outras Bandeiras Militares, Centro Tipográfico Colonial, 1930
  • QUINTA-NOVA, Henrique, Os Lanceiros – Subsídios para a sua História, Jornal Lanceiro nº2 e nº 7, 2000
  • SMITH, Digby, Uniforms of the Napoleonic Wars, Anness Publishing, 2006

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