A vida do Marechal Osório

Manuel Luís Osório vem ao mundo filho de um casal unido pelo amor. Seu pai, Manuel Luís da Silveira, descende de açorianos que se estabelecem em Santa Catarina. Era militar e já havia atingido o posto de furriel em 1796 quando se rebela contra um chefe que praticava atos exorbitantes contra um mísero soldado. Preso, não se conforma e foge em direção ao Rio Grande do Sul. Chegando a Rio Grande de São Pedro, é bem recebido na estância do Tenente Tomás José Luís Osório, no município de Conceição do Arroio. Logo adquire a confiança e estima do dono da estância e de sua filha, Ana Joaquina. Ao correrem as proclamas de casamento, o pároco muda o nome para Manuel Luís da Silva Borges, a fim de que escape à perseguição por ser desertor. Colocará nos filhos o sobrenome Osório, por consideração à esposa e ao sogro que o protegera na desgraça. Não consegue permanecer tranqüilo, pois logo retorna às armas, para a guerra de 1811 no Estado Oriental. Retorna como capitão e condecorado por bravura. Retoma sua vida pacífica de pequeno estancieiro mas, quatro anos mais tarde, parte de novo para a guerra, é a campanha de 1816 a 1821, na qual toma parte sem interrupção. Não consegue mais descanso, pois participará da Guerra de Independência e das campanhas que lhe seguem. Para a Guerra de Independência, conduzirá o filho Manuel Luís, com apenas 14 anos, em quem via imensa aptidão para a carreira militar. 

Na imensa planície ondulada, o menino e o cavalo formam um só corpo. Na fronteira, onde se vivia da criação de gado, a vida era um galopar constante. E o garoto foi criado à moda gaúcha, aprendendo a manusear o laço, as boleadeiras e a faca. Primeiro em Conceição do Arroio, onde nascera em 1808, depois em Salto, quando seus pais para ali se mudaram, com seu pai já no posto de tenente-coronel, Manoel Luís cresceu sobre o dorso de um cavalo. 

Acostumou-se muito cedo a dormir ao relento, a se abrigar do minuano com seu poncho, a fazer o fogo, a assar a carne e a beber chimarrão. Aprendeu a conhecer os caminhos, a seguir um rastro, a se orientar na planície vazia. 

Aos 14 anos de idade, Osório conhecia a natação, a equitação e a dança. Nadando, vencia com rapidez longas distâncias. Montava em qualquer animal bravio, com a mesma facilidade que no manso, encilhado ou em pelo. Para divertir-se, tirava-lhe o freio e fazia o animal disparar vertiginosamente. Quando lhe parecia, abandonava-o de um salto e caía em pé. Manejava com destreza as boleadeiras e o laço do campeiro rio-grandense. Sua curiosidade era insaciável, interessava-se pelo funcionamento das máquinas e esmerava-se para fazer mais do que qualquer outro. A caça era seu divertimento predileto e a perícia que adquiriu no tiro salvar-lhe-ia a vida mais tarde. 

Mas, enquanto cavalgava pelos pampas, o menino alimentava um desejo, escondia uma ambição: queria aprender as primeiras letras com o sapateiro e mestre-escola Miguel Alves. Depois de mudar-se para Salto, tivera aulas com o capitão dos Dragões Domingos José de Almeida. No entanto, queria mais, muito mais. Queria seguir uma escola regular e conhecer tudo que pudesse. Mas nos pampas não havia escola, as mais próximas ficavam em Porto Alegre. 

Seu pai, comandante do Regimento de Salto, e sua mãe, filha de estancieiro da região, vivendo as freqüentes lutas entre os colonos espanhóis e portugueses da região, sofrendo as constantes tropelias dos caudilhos regionais, valorizavam a habilidade de um homem para lutar, sobreviver, defender-se, considerando a continuação dos estudos coisa supérflua. Além disso, não tinham meios para sustentar a viagem e estada do filho na capital. 

Em 1822 – contava Manoel Luís Osorio com catorze anos – o Brasil proclamou sua independência, e parte da guarnição portuguesa sediada em Montevidéu (a região uruguaia pertencia ao Brasil), não aceitou a emancipação. Iniciava-se no Sul a guerra da independência e o Regimento de Salto, comandado por Silva Borges, preparava-se para entrar em ação. 

Antes de partir, Silva Borges chamou o filho e comunicou-lhe que decidira levá-lo. O menino Osorio chorou: não desejava abandonar os estudos. Mas o pai fez-lhe ver que não havia meios pecuniários para que ele continuasse os estudos numa grande cidade, e que sua aptidão para a vida militar poderia dar-lhe uma carreira brilhante no Exército. 

Osorio obedece ao pai. Segue com ele – conforme confessaria mais tarde – sem contrariedades, mas também sem entusiasmo. Entretanto, à medida que a campanha prossegue, Osorio vai-se empolgando pela luta. Embora não participe diretamente dos combates, sente que está lutando pela independência de seu País. Isso o decide. Poucos dias antes de alcançar a idade regulamentar de quinze anos, Manoel Luís Osorio assenta praça oficialmente no Exército, como voluntário da Legião de São Paulo. 

Logo depois, Osório tem seu batismo de fogo enfrentando os cavalarianos portugueses próximo a Montevidéu. Desde o princípio, sua habilidade de ginete e destreza com que manejava as armas fizeram dele um dos melhores soldados da Legião. Quando, em 1824, as guarnições lusas retiraram-se da região uruguaia, que permanece província do novo império, Osorio já conquistara duas promoções: primeiro, cadete, depois alferes no Terceiro Regimento de Cavalaria de Linha. 

Finda a guerra, o alferes Osorio, com dezesseis anos, achou que era chegado o momento de voltar aos estudos. Requereu licença ao governo para ingressar em um instituto militar. Mas seus chefes compreendiam que a paz era precária, e nuvens de tempestade se estavam formando. O Uruguai, então chamado Província Cisplatina, de formação e idiomas diferentes do Brasil, aspirava à independência política, e nisso era apoiado pelas demais nações de origem castelhana do Prata. Interesses europeus no comércio e na navegação daquela área também insuflavam a insurreição contra o império. O Brasil consideraria a independência da Cisplatina, mas não a sua incorporação a outro país. A luta armada seria inevitável. Por isso, a licença de Osorio foi negada. 

UMA GUERRA INDECISA 

Em 19 de abril de 1825, o Comandante Lavalleja cruzou o rio Paraná à frente de 33 homens, entrando em território uruguaio. Foi o sinal para que outros chefes aderissem à revolta, entre eles Frutuoso Rivera, que dera decisivo auxílio ao Brasil nas lutas contra Portugal. 

Bento Manoel, caudilho acostumado às correias da fronteira, exagerando sua ousadia, passou da função de cobertura e vigilância, missão original de sua força, para o ataque ao grosso da tropa uruguaia. Em Sarandi, atacou em condições precárias e foi rechaçado e batido. Da jornada, salvou-se o esforço e o valor de Osorio no comando do seu Esquadrão. Duelando com arma branca, comandando evoluções de seu esquadrão, recompondo os dispersos e levando-os a cobrir os movimentos de concentração de Bento Manoel, o jovem Osorio mereceu do chefe imediato uma expressão equivalente à melhor condecoração. Ao fim da jornada, Bento Manuel, que teve sua vida salva por Osório no desenrolar do combate, disse, apontando-o com admiração: “a esse hei de legar a minha lança”. Neste combate, Osório abate pessoalmente dois gaúchos uruguaios que o perseguiam, um a tiro e outro com um golpe da pistola já descarregada após defender-se com ela de um golpe de espada. O Exército Brasileiro concentrou-se em Santana do Livramento, de onde lançava várias incursões sobre o território uruguaio. Por seu lado, Buenos Aires, em guerra com o Brasil desde 10 de dezembro de 1825, organizava seu exército. 

Todo o ano de 1826 consumiu-se em preparativos e escaramuças, mas em janeiro de 1827, o General argentino Carlos Alvear, à frente de 10 mil homens, invadiu o Rio Grande do Sul. O Exército Imperial, comandado pelo Marquês de Barbacena, foi-lhe ao encontro, travando-se o combate no Passo do Rosário, a 20 de fevereiro. A batalha, iniciada pela madrugada, prosseguiu indecisa até à tarde, quando Barbacena deixou o campo. Osorio distinguiu-se na batalha, conseguindo seu esquadrão conservar-se firme ante as cargas argentinas, manobrar e atacar o inimigo pela retaguarda, causando-lhe completa derrota naquela zona de ação, apesar da retirada do restante do Exército de Barbacena. Alvear, embora proclamando vitória, também fez meia volta recuando até o território uruguaio. 

A guerra indecisa começava a constituir um fato indesejável para os dois países, ambos vivendo as crises políticas que sucederam suas independências. Ademais, ambos os governos reconheciam que os habitantes da região cisplatina não aceitariam nada que não fosse sua soberania política e territorial. E, para concedê-la, mediante negociações, começaram os entendimentos. 

Osorio, que participara em inúmeros combates da campanha de 1825 a 1828 e fora promovido a primeiro-tenente, esteve por duas vezes no quartel-general de Lavalleja, dando início às conversações de paz que seriam concluídas no Rio de Janeiro. Pelo tratado de 1828, que encerrou a disputa, o Uruguai tornava-se independente, separado de Buenos Aires, garantindo-se ao Brasil o direito de navegação pelo Rio da Prata. 

AMOR E DESAMOR NO RIO PARDO 

Só vivo quando te vejo / Dia e noite penso em ti, / Se nasceste para amar-me, / Eu para te amar nasci. 

Em Rio Pardo, onde ficou sediado o seu 5o Regimento de Cavalaria, Osorio, moço de 21 anos, faz versos para Ana, que ele, à moda dos poetas, chama de Lília. 

Mas os pais da moça, estancieiros, gente de posse, não desejam que sua filha se case com um tenente da cavalaria, que nada tinha de seu, a não ser um magro soldo. E proíbem os encontros entre os dois namorados, que não aceitam a decisão, resolvidos a levar avante o seu romance. 

A família influente pede a intervenção do comandante das armas da província, Marechal Sebastião Barreto Pereira Pinto, padrinho de Ana. Osorio é transferido para a fronteira, região cheia de perigos, salteadores e bandidos argentinos, uruguaios e brasileiros, que atacavam até mesmo as guarnições do Exército para lhes roubar armas e montarias. 

Nos intervalos entre os choques com os bandidos, Osorio escrevia versos apaixonados, que enviava secretamente a Ana, sem nunca receber resposta. Desiludido, escreve pela última vez: Ingrata que me deixaste, / Na tua cruel mudança, / Recordações do passado, / Uma perdida esperança. 

Em Rio Pardo, a família da moça resolve casá-la com um parente de boa posição econômica. Ana, frente à autoridade paterna, não sabe o que fazer. Não esquecera Osorio, mas se julgava esquecida, pois dele não recebera uma só carta. Não quer aceitar o casamento forçado, e por isso faz uma última tentativa: escreve uma longa e apaixonada carta, pede a Osorio que venha buscá-la, dispõe-se a fugir com ele, abandonar os pais e a família. Tudo pronto, chama um peão de sua confiança e recomenda-lhe que entregue a carta pessoalmente a Osorio. 

O peão segue, a esperança fica, os dias passam. A data do casamento se aproxima e nenhuma notícia. Na véspera, a família festeja, a noiva chora. Sentia-se abandonada e aceita o boato de que Osorio estava morto. 

Um homem chega à fronteira. Uma doença súbita detivera-o durante semanas pelo caminho. Das suas mãos ainda febris, Osorio recebe a carta de Ana. Lê e compreende. A família de Ana escondera dela todos os bilhetes que lhe mandara. 

É o tempo de avisar seu comandante e saltar sobre o dorso de um cavalo. Até o Rio Pardo, uma louca disparada. Depois, a procura de Ana. 

– Ana, moço? Ana casou-se e foi embora com o marido. 

Osorio, Romeu derrotado, voltou sobre seus passos. O cavalo, rédea solta, levou-o de volta para a fronteira. Quanto a Ana, em poucos dias adoecia e em alguns dias mais estava morta. Quando a prepararam para ser enterrada, viram gravado em seu peito, ao lado do coração, o nome de Osorio. 

ONDE TERMINA A JUVENTUDE 

Em 1835, começa a Revolução Farroupilha, que duraria 10 anos. Os rebeldes, liderados por Bento Gonçalves, queriam autonomia administrativa, mas ainda não cogitavam – como fariam mais tarde – de transformar o Rio Grande em república. As forças legalistas acorreram a combatê-los, em defesa da unidade do império. 

Osorio, que se inscrevera no partido liberal, foi disputado pelas duas facções, que viam nele não apenas um excelente soldado, mas também um homem inteligente, que poderia exercer uma função política. 

Embora suas idéias o aproximassem dos rebelados, Osorio não acreditava em uma solução 

de força e julgava precipitada a eclosão do movimento. Antes que pudesse esclarecer sua posição, recebeu um bilhete do pai: “estou me aprontando para marchar em defesa da legalidade. Se tu és dos revolucionários que desobedecem à autoridade do presidente Araújo Ribeiro e tramam a separação da província, pode contar em mim um inimigo a mais com quem brigar. Adeus. Teu pai Manoel Luís da Silva Borges”. 

Além de tudo, a guerra chegava para Osorio num momento inoportuno. Em Bagé, onde estava sediado, conseguira, depois de seis anos, esquecer o episódio de Ana. Conhecera Francisca, morena, pequena, graciosa, filha do juiz de paz Zeferino Fagundes de Oliveira, e com ela se casara a 15 de novembro de 1835. 

Logo em seguida, teve que partir, chamado a participar da luta, ao lado das forças legalistas. Antes, escreveu uma poesia, em que falava: “adeus, mulher adorada”, e seguiu para o combate. Enfrentou os rebeldes em Porto Alegre, Rio Pardo – onde liderou a última carga – Bagé e Caçapava, mas sua maior batalha foi travada na região de Erval, a 03 de maio de 1838, onde se distinguiu, aumentando a fama de sua capacidade militar. 

Foi promovido a capitão. Seu pai morreu logo nos primeiros combates, deixando-lhe a mãe em estado de miséria. Osorio via morrer amigos e companheiros que se batiam de um e de outro lado. Desejava voltar para junto da esposa. Aos 31 anos, com dezesseis anos de Exército, dos quais nove em campanhas militares, pediu a reforma para poder cuidar dos negócios da família, particularmente de sua mãe. Mas a guerra continuava e o império não podia dispensar os serviços de um de seus soldados mais valentes. E Manoel Luís Osorio continuou a lutar. 

Em 1842, Caxias assume a presidência do Rio Grande. Logo, Osorio, que por sua coragem já recebera a condecoração do Cruzeiro do Sul, impressiona-o por duas razões: a valentia no combate e o entusiasmo pela paz. Já como major, escuta de Caxias “tenho admirado a sua conduta, o Corpo de seu Comando é modelar, o governo deve-lhe uma promoção”. Por isso, depois de promovê-lo a tenente-coronel, envia-o ao Uruguai, onde Frutuoso Rivera oferecia-se como mediador da disputa entre farroupilhas e imperiais. Os brasileiros não desejavam aceitar a arbitragem do chefe uruguaio na questão interna mas, no acampamento de Rivera, Osorio encontrou o ministro da guerra farroupilha, Antonio Vicente Fontoura, e fez-lhe ver que os dois lados deveriam procurar a paz sem influência das nações estrangeiras. Iniciavam-se assim as negociações, que seriam retomadas no Rio Grande do Sul, até a pacificação da província. 

Finda a luta, Osorio recebeu também o hábito de São Bento de Aviz e a Ordem da Rosa. Ostentava todas as suas condecorações ao chefiar, montado em um cavalo branco, a escolta do imperador em visita à região pacificada. Dom Pedro II, então com 20 anos, impressionou-se com a figura do cavaleiro e a habilidade com que tratava a montaria. 

Osorio não era mais um jovem. Tenente-coronel, pai de família, figura varonil e bem posta, ombros largos, alto, jovial e comunicativo, muitos amigos e inimigos ferozes, era um homem importante e seria mesmo eleito deputado provincial. No Regimento de Osório, tudo é modelar para a época, embora a administração superior provocasse atraso nos soldos e não satisfizesse muitos dos pedidos de material. Neste período, antes das eleições, recebe carta de Caxias que lhe pede apoio e votos para se eleger senador pela província. Apóia Caxias e, graças ao imenso prestígio de Osorio no Rio Grande, ambos são eleitos, mesmo sendo Caxias do partido Conservador. Sua modéstia e dedicação à profissão militar fazem com que não tome parte direta nos trabalhos da Assembléia Provincial, intervindo apenas por indicações a seus colegas em atividade. 

Caxias, ao despedir-se do Sul, definira o seu valor: – É o maior guasca da província. 

PARA LIBERTAR A NOVA TROIA 

O Rio grande e o Uruguai cresceram juntos. Não havia entre eles limites naturais e muitos uruguaios tinham interesses em terras gaúchas e vice-versa. O próprio Osorio, desejoso de garantir sua família, comprara uma estância em território uruguaio. Embora, de quando em quando, bandidos de um e outro país fizessem incursões de pilhagem, para retornar depois à segurança da fronteira, as duas regiões conviviam pacificamente, e os seus habitantes iam reforçando seus laços de amizade. Governava o Uruguai o velho Frutuoso Rivera, que, esquecidas as lutas pela independência de seu país, retomara as muitas amizades que fizera no Rio Grande do Sul. Por seu turno, Juán Manuel Rosas chegara ao poder na Argentina (1835), e centralizara sua política em torno de Buenos Aires e da Região do Prata. Buscando assenhorear-se de ambas as margens do rio, auxiliava Manoel Oribe, chefe uruguaio inimigo de Rivera, e que desde 1838 buscara asilo na Argentina. 

Com apoio de Rosas, Oribe invadiu o Uruguai, e em 1842 iniciou o sítio a Montevidéu. Na fronteira, a situação mudou. Oribe prendeu e ameaçou brasileiros residentes no Uruguai. E ele próprio organizou expedições contra as estâncias rio-grandenses. Os gaúchos, em contrapartida, prepararam grupos de represália, as chamadas califórnias, das quais as mais famosas foram chefiadas por Chico Pedro (Francisco Pedro de Abreu, Barão de Jacuí). 

Enquanto isso, Montevidéu resistia. O Império, desejoso de não se envolver na política do país vizinho, procurava reprimir as califórnias, e o próprio Osório, embora tivesse interesses no Uruguai, bateu-se para evitar tais expedições. 

A vitória de Rosas significava a hegemonia de Buenos Aires sobre o estuário do Prata. Essa possibilidade preocupava até mesmo as províncias argentinas às margens do rio Paraná, que, embora fizessem parte da República das Províncias Unidas do Rio da Prata, sentiam-se preteridas em seus interesses pelos privilégios que Buenos Aires ia acumulando. Por isso, Santa Fé, Corrientes e Entre-Rios romperam com Rosas, unindo seus interesses aos do Paraguai, Brasil e dos uruguaios de Rivera. 

Em 1851, Montevidéu ainda resistia, depois de nove anos de sítio. Corriam boatos de que a França, que auxiliava financeiramente a defesa da cidade, estava prestes a seguir o exemplo da Inglaterra, que beneficiava Rosas, e, se assim fosse, era iminente a capitulação de Montevidéu. 

Osorio recebeu uma missão: viajar para Entre-Rios e entender-se com o Gen argentino Justo José de Urquiza. Na volta, atravessou com dois companheiros o território uruguaio cheio de inimigos. Os cavalos caíram de cansaço, os cavaleiros que o acompanhavam adoeceram, mas Osorio chegou quando todos pensavam que ainda estivesse no acampamento de Urquiza. Fazendo a ligação entre Urquiza e Caxias, possibilitou que os dois Exércitos confluíssem para a capital uruguaia. 

Oribe rendeu-se. Montevidéu não caiu. A seguir, sob a chefia suprema de Urquiza, Osorio comandou um regimento de cavalaria brasileira no ataque às posições de Rosas, já em território argentino. 

A batalha feriu-se em Monte Caseros. Os soldados do Rio Grande do Sul usavam na barretina as iniciais da província. O regimento de Osorio, o Segundo de Cavalaria, vestia blusas vermelho-vivo e calças azul-escuro. Audaz, com a espada desembainhada, Osorio tomou uma bateria inimiga. Da batalha, ficaram os relatos do Brigadeiro Marques de Sousa “Osorio foi parte nas manobras rápidas e ousadas da cavalaria; dirigiu seus camaradas em todas as cargas heróicas e, por fim, marchou a trote contra uma bateria inimiga de cinco bocas de fogo e a tomou”. O argentino De La Madrid relatou a seu chefe “El Teniente – Coronel Osório, com su bravo y disciplinado cuerpo, se há conduzido com bisarria admiravel” “… cabe-me asi mismo la satisfación de haber, em la última carga de Division y Regimiento brasileño del Teniente-Coronel Osorio, sobre los ultimos restos de la infantaria del tirano haberlos obligado al abandono de dos obuses y trés ó quatro cañones”. Osório, bom chefe e amigo de seus camaradas, não guarda para si os louros das vitórias e, antes, os atribui aos seus bravos comandados. 

Ao fim da batalha, Rosas fugiu, abrigou-se em um navio inglês que o levaria para Londres. Urquiza, vencedor, seria o futuro presidente de seu país. Terminara a campanha do Prata. 

O CAMPO DAS VACAS BRANCAS 

Depois de servir alguns anos em Jaguarão e Bagé, onde se tornara uma respeitável figura política nos quadros do Partido Liberal, chegando mesmo a ser chamado para mediar disputas entre partidos uruguaios, o Coronel Osorio foi transferido para São Borja, próximo à fronteira do Paraguai.

Durante os três anos em que ali permaneceu, Osorio apercebeu-se do fortalecimento bélico dos paraguaios, e disso informou as autoridades brasileiras. Fez também um reconhecimento do rio Uruguai e zonas limítrofes. Mas não se ateve a funções puramente militares. Preocupado com a vida da população ainda abandonada, fez vir advogados que regulassem os direitos e as propriedades da gente da região. Sempre atento às necessidades de educação, chamou professores para ali divulgarem as primeiras letras. Mas, seu maior serviço a São Borja foi de natureza econômica: sabia-se pelas tradições que vinham do tempo da colonização jesuíta, que às margens dos rios havia extensos campos de erva-mate, e também uma imensa pastagem de animais, conhecida como “campo das vacas brancas”. Essa riqueza, abandonada um século antes pelos jesuítas expulsos, perderam-se. Osorio dispôs-se a recuperá-la. 

Organizou uma expedição que entrou pelo sertão, margeando rios e arroios. Depois de muita busca, surpreenderam-se ao encontrar, em meio à mata, um laranjal, cercado de madeira de lei. Seguindo a pista, acabaram por encontrar uma riquíssima área de erva-mate, que foi de grande proveito para a economia da região. 

AGORA, UMA GRANDE SURPRESA. 

“Fomos todos surpreendidos pelo Paraguai”, escreveu Osorio a Davi Canabarro, em maio de 1865. 

Em seguida a uma crise política uruguaia, na qual o Brasil interviera sob os protestos do governo de Assunção, o Exército do Paraguai invadira o Brasil. Sabia-se que Solano López, governante do Paraguai, fortalecera suas tropas com armamento moderno e cuidara de fortificar os rios que davam acesso ao país. Não se supunha, contudo, que seus interesses no Prata o levassem a desfechar um ataque contra o império. 

O primeiro ato de guerra foi o aprisionamento do navio Marquês de Olinda, que levava a bordo o presidente da Província de Mato Grosso, Carneiro de Campos, bem como o dinheiro que o tesouro nacional remetia para Cuiabá. Logo depois, o Coronel Barrios entrava em Mato Grosso investindo sobre Nova Coimbra, Miranda e Dourados. Nessa última zona, o tenente Antônio João, comandante da colônia, preparou-se para resistir, à frente de apenas treze homens, contra as forças paraguaias. “Sei que morro”, escreveu o tenente de cavalaria em um bilhete, “mas meu sangue e o de meus companheiros servirão de protesto solene contra a invasão do solo da minha pátria”. Todos morreram. 

Em janeiro de 1865, o sul de Mato Grosso era anexado ao Paraguai. A população da província não excederia a 15 mil habitantes, excluídos os indígenas que, isolados do resto do país, (a viagem a cavalo de Corumbá ao Rio de Janeiro durava três meses), não puderam resistir ao ímpeto do bem armado Exército de López. 

Para os brasileiros, a invasão foi um choque. Todo o império contava com apenas 17 mil soldados, aos quais faltavam muitas vezes montarias e armas eficientes, para enfrentar os 70 mil homens dotados de equipamentos modernos de que dispunha Solano Lopéz. Imediatamente, instituiu-se a aplicação geral do recrutamento; as guardas nacionais de São Paulo, Goiás e Minas Gerais foram chamadas às armas, e criaram-se os Batalhões de Voluntários da Pátria. 

Enquanto os brasileiros procuravam se organizar, o Paraguai invadia o Rio Grande do Sul, cruzando Corrientes chegando até Uruguaiana. Com isso, Argentina e Uruguai uniram-se ao Brasil, dando lugar ao Tratado da Tríplice Aliança. Pelo tratado, as tropas aliadas estariam sob o comando do argentino Mitre, permanecendo a Marinha sob a chefia de Tamandaré. 

Contando com a fraqueza dos países aliados, o Paraguai estendera demais suas linhas. Dominando o Prata, Tamandaré bloqueava a navegação pela bacia Paraná-Paraguai e, com vitória terrestre de Jataí, cortaram-se as linhas de comunicação paraguaias. O Exército de Estigarribia ficou isolado em Uruguaiana, acabando por render-se em 08 de agosto de 1865. 

Osorio, comandando os brasileiros, desenvolvera durante todo esse tempo um intenso trabalho de recrutamento, treino e obtenção de material para o Exército. Após a retomada de Uruguaiana, juntou-se a Mitre e, pouco depois, a cavalaria argentina entrava em Corrientes, abandonada pelos paraguaios. Desistindo das grandes operações terrestres, Solano Lopéz concentraria seus esforços nas regiões ribeirinhas, buscando ampliar suas ações até o Prata. Barroso desbaratou seus planos, vencendo sua Marinha em Riachuelo em 11 de junho de 1866, com o que as forças de Lopéz tiveram que retroceder para seus próprios territórios. 

Solano Lopéz fizera fortificar todos os pontos estratégicos ao longo do rio e pretendia continuar a guerra. Para garantir o acesso até Mato Grosso, os brasileiros necessitavam invadir o Paraguai, ultrapassando as fortificações fluviais. Para transpor o rio, os comandos aliados decidiram-se pelo Passo da Pátria, onde a Esquadra de Tamandaré poderia garantir a passagem das tropas. 

Ao se aproximar a hora da operação, os chefes aliados se reuniram a bordo do Apa. Discutiu-se quais as unidades que deveriam desembarcar primeiro em território inimigo. Enquanto debatiam a questão, Osorio permanecia calado. Notando isso, alguém interpelou: – O que pensa disso o General Osorio? – Discutam como quiserem, mas quem há de passar primeiro o Passo da Pátria hei de ser eu. 

Na noite de 15 de abril de 1866, Osorio, à frente de doze cavalarianos gaúchos, entra no Paraguai. Ao iniciar o avanço, Osorio definiu a tarefa: – É fácil a missão de comandar homens livres: basta mostrar-lhes o caminho do dever. 

O Exército aliado avançava penosamente por pântanos e terrenos difíceis. Lopéz ia se retirando para seus postos fortificados, deixando grupos de combate que fustigavam os atacantes. Assim, chegam à região de Tuiuti, onde os paraguaios tentam um contra-ataque que se transformou na maior batalha de toda a guerra, travada a 24 de maio de 1866. Osório, onipresente nos locais de maior perigo, comandou o Exército Brasileiro até que os paraguaios se retirassem derrotados. 

Apesar disso, nos dois anos seguintes, a situação permaneceu estacionária quanto às operações. E a saúde de Osorio tornava-se precária. Tinha muita dificuldade para montar, pois as pernas estavam inchadas. Sofria também de uma inflamação no estômago. Não lhe era mais possível continuar a luta e, para grande tristeza de seus subordinados, passou o comando para o marechal Polidoro da Fonseca e regressou ao Rio Grande. 

RUMO ÀS BATALHAS DECISIVAS 

Por algum tempo, Osorio permaneceria em tratamento, sem deixar de exercer tarefas de treinamento para os recrutas. Mas voltaria à batalha. Foi chamado por Caxias, comandante do Exército Brasileiro desde 1866; promovido a Tenente-General, Osorio seguiu para Humaitá, a maior fortaleza paraguaia. 

No assalto final à fortaleza, cujos fossos são transpostos um a um, Osorio com quase sessenta anos, doente, avançava com soldados, recebendo as balas que chovem por todos os lados. A resistência paraguaia dura vários dias, mas finalmente cede. 

Prossegue o avanço brasileiro, conquistando palmo a palmo o terreno. Passam por Itororó, onde os paraguaios recuam ao terem conhecimento da aproximação de Osorio pelo seu flanco, após realizar um amplo desbordamento, e após quatro horas de luta. Chegam a Avaí. Osorio, aos gritos de “avante leões”, comanda seu Corpo de Exército no assalto contra as posições guaranis. Mas seu grito é cortado de repente. Uma bala o atingira no queixo, perfurando o maxilar até a boca. Esconde o ferimento com o poncho, passa o comando ao Brigadeiro Auto Guimarães, mas permanece no campo de batalha para que os soldados não desanimem com a ausência. 

Vencida a batalha, Osorio voltou a Pelotas. Estava ausente quando Caxias entrou em Assunção a 5 de janeiro de 1869. 

A despeito da perda da capital, López ainda procurou resistir. Esse último período da guerra – a Campanha da Cordilheira – seria uma guerra de perseguição a López, refugiado nas montanhas, de onde não era fácil desalojá-lo. Caxias, doente, deixara o comando, substituído pelo Conde D’Eu. Os soldados brasileiros esperavam pela volta de Osorio, já admirado e idolatrado por todo o Exército por sua coragem, espírito aguerrido e camaradagem, e o próprio Conde D’Eu envia-lhe um apelo para que retorne à luta. Apesar dos ferimentos, da doença e da idade, Osorio volta. Em sua chegada, a tropa o recebeu de forma triunfal, tal era sua liderança. Entre os subordinados que o admiravam, assim como Napoleão era chamado de “petit caporal”, Osorio era chamado de “cabo velho”, tão grande era a afeição que sentiam por aquele velho guerreiro. Seria nomeado Comandante do Primeiro Corpo do Exército. 

Passando pela Argentina em viagem ao Paraguai, recebeu o título de cidadão argentino. Querido pelos brasileiros, respeitado pelos uruguaios, recebia agora as chaves de uma terceira pátria. 

No Paraguai, participou ativamente da campanha, apesar dos sofrimentos provocados por antigos ferimentos. Toma parte na tomada de Peribebuí, obrigando Lopéz a abandonar a região e retroceder para Caraguataí. A 23 de novembro de 1869, Osorio, cuja saúde piorara, retirou-se em definitivo do Paraguai. De passagem por Montevidéu, recebeu a notícia da morte de Francisca, sua esposa. Acumulavam-se os sofrimentos para abater o ânimo do velho general. 

Na guerra, a perseguição a López chegava ao final. Encurralado em Cerro Corá, o governante paraguaio recebeu os brasileiros de espada na mão, disposto a resistir até a morte. E, realmente, assim foi. Na luta, o golpe de lança no peito e um tiro, desfechado pelo cabo Chico Diabo, puseram fim à vida de Solano Lopéz. 

Terminava a guerra do Paraguai. 

VIAGEM À TERRA DAS MARAVILHAS 

Osorio fora temperado pela vida. O ferimento, a velhice, a viuvez, a doença, não foram capazes de abater seu espírito sempre alegre, amigo e jovial. Quando soube que o imperador lhe conferira o título de nobreza (Visconde, depois Marquês Herval, em referência aos campos de mate que ele descobrira), comentou: – Do Herval? É que o imperador deve saber do meu gosto pelo chimarrão. 

Permaneceu mais alguns anos no Rio Grande, e a Província não se cansava de homenageá-lo. Em meios a muitos festejos, Deodoro da Fonseca, que servia sob suas ordens no Paraguai, entregou-lhe, em nome de todos os soldados, uma espada de ouro. 

De volta à política, Osorio foi feito senador e embarcou para o Rio de Janeiro, onde estivera apenas duas vezes. Não esperava a recepção que a Capital do Império lhe faria: a maior das festas da cidade naquele tempo, num suceder de discursos, bailes, poesias. Osorio, com sua maneira simples e brincalhona reclamava apenas de uma coisa: – roubaram-me 10 contos da mala que deixei no hotel. 

Depois, foi ao Recife visitar os filhos, que ali estudavam na faculdade de direito. Outra surpresa: foi recebido em triunfo, tanto em Recife como em Salvador, por onde passou. Osorio era um homem realizado. Os quatro filhos – Fernando, Adolfo, Francisco e Manuela – estudavam cumprindo um velho sonho do pai. Herói popular, político respeitável, chefe do Partido Liberal no Rio Grande. No senado, seus discursos eram diretos e vigorosos. Foi escolhido Ministro da Guerra durante o gabinete Sinimbu. 

Neste cargo, procurou melhorar as guarnições de fronteira, construiu quartéis e modernizou a cavalaria. Preocupou – se com a construção de linhas telegráficas e reorganizou os arquivos do Exército. 

Desempenhava suas funções com alegre energia e humor. Certa vez, Dom Pedro recusou-se a assinar a promoção de um capitão. Depois de insistir por diversas ocasiões, o imperador disse-lhe: – O senhor conhece bem esse oficial? – Nada sei que o desabone, respondeu Osorio. – Ouvi dizer – disse Dom Pedro hesitante – que gosta muito de mulheres. Se for por isso – Osorio riu -, eu não deveria passar de um simples soldado. 

O Capitão foi promovido. 

Quem visse aquele velhinho alegre e espirituoso não pensaria nele como o grande leão das batalhas. Nem mesmo Pedro II estava livre do seu humor. Numa entrevista para despachar alguns papéis, Dom Pedro começou a cochilar. Para despertá-lo, Osorio deixou cair no chão à espada. Com 

o estrondo, o imperador acordou sobressaltado e exclamou: – Ainda bem que sua espada não caiu no campo de batalha. 

E Osorio replicou de pronto: – É que ali ninguém dormia, majestade.

Ainda ocupava o Ministério da Guerra quando teve uma pneumonia aguda, que se agravou rapidamente. Ao chegar o médico que o atendia e que o cumprimentou: “Como vai Marquês?”, respondeu Osório: “águas abaixo para a eternidade”. 

Morreu a 4 de outubro de 1879. 

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