A história de um dobrado

Publicado no jornal “Zero Hora”, de Porto Alegre, em 16 de Junho de 2012.

No dia 27 de agosto de 1893, travou-se o combate de Cerro do Ouro, em São Gabriel. As tropas governistas comandadas pelo general Francisco Portugal, dirigidas por Gumercindo Saraiva. Os castilistas foram destroçados deste local do combate até a margem do Rio Vacacaí, a beira da cidade de são Gabriel, num percurso de mais de 40 quilômetros.

Todavia, de tudo que se tem escrito desse combate, raros são os que citam a Divisão do Exército, aliada dos legalistas, comandada pelo general Antônio Joaquim Bacellar, que amanhecera acampada a uma légua do local, na estância de Cerro do Ouro, à retaguarda do ataque das forças federalistas.

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A NOVA CAVALARIA

Deve-se a Carlos VII, rei da França, o aparecimento da Cavalaria como Arma. Foi ele que, por volta de 1445, instituiu o primeiro exército permanente, constituído por duas Armas: a Cavalaria e a Infantaria.

Devido à evolução dos armamentos no final do século XV, começaram a aparecer unidades de cavalaria com armas de fogo, e no século seguinte a Cavalaria passa a ser constituída por três tipos de unidades: COURACEIROS (cavalaria pesada), HUSSARDOS (cavalaria ligeira) e DRAGÕES (cavalaria apta a combater a pé e a cavalo).

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BANDEIROLAS DAS LANÇAS DA CAVALARIA PORTUGUESA, DESDE O SÉCULO XIX

JOSÉ J. X. SOBRAL

A lança, como arma de cavalaria, é utilizada desde a antiguidade. Sendo uma das principais armas da cavalaria medieval, a lança cairá em desuso, na maioria dos exércitos europeus, a partir do século XVI. A lança manteve-se, contudo, em utilização por algumas forças de cavalaria do leste da Europa, como as polacas e as cossacas.

A partir de meados do século XVIII, alguns exércitos ocidentais optam por reviver a lança como arma de cavalaria, criando unidades assim armadas, normalmente constituídas por soldados recrutados na Europa de Leste. Assim, por exemplo, a Prússia, a Áustria e a França criam regimentos de ulanos, constituídos por lanceiros polacos. Os lanceiros irão alcançar grande prestígio ao serviço dos exércitos napoleónicos. Os regimentos de lanceiros polacos da Legião do Vístula ao serviço de Napoleão, irão cobrir-se de glória nas campanhas da Alemanha e da Península Ibérica, demonstrando a eficiência daquele tipo de cavalaria. No final e a seguir às guerras napoleónicas, grande parte dos exércitos ocidentais irá criar unidades de lanceiros, seguindo o modelo polaco, em termos de tática, armamento e uniformes – quase todas as unidades de lanceiros, por exemplo, adoptaram a czapka, cobertura de cabeça militar típica da Polónia.

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17. A CAVALARIA NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Existem idéias generalizadas de que a Cavalaria a cavalo não foi empregada na 2ª Guerra Mundial e que nas poucas ações conhecidas de forças montadas no período 1939 – 1945 seus resultados foram negativos. Nada é mais distante da verdade que tais afirmações. Se o blindado, a aviação, a artilharia e, mais tarde, as armas atômicas foram a chave do sucesso nos campos de batalha nos diferentes teatros de operações, não podemos menosprezar as ações realizadas por Unidades a cavalo na maior parte das campanhas conduzidas pelos principais países beligerantes. Não se pode negar, também, que as maiores potências militares da época estiveram influenciadas pelo desenvolvimento das forças motorizadas e blindadas, nas quais viam o substituto para a Arma que no passado, decidia as batalhas, a Cavalaria a cavalo, à qual foram relegando, aos poucos, um papel secundário e reduzindo suas unidades, sem entretanto dissolvê-la por completo, pois ainda visualizavam seu emprego em determinadas missões e tipos de terreno.

Alguns países criaram unidades mistas, mecanizadas e a cavalo, para cumprir missões de reconhecimento, dando na maior parte das vezes, magníficos resultados, já que ambos se completavam. Nos deslocamentos a grandes distâncias ou em profundidade no campo de batalha se empregavam as unidades mecanizadas, pelas suas características próprias. Na zona de marcha de uma unidade ou para atingir e manter objetivos distantes por certo tempo, empregavam as forças a cavalo, deslocando-as através campo, com menores encargos logísticos e aproveitando suas características de boa mobilidade e sigilo nas operações, principalmente nos deslocamentos noturnos.

Vários países, no período entre o final da 1ª Guerra Mundial e o início da 2ª Guerra Mundial, não quiseram evoluir a Arma de Cavalaria, como às suas demais Armas. Ao iniciar-se o conflito, os países, como a Rússia, que mantiveram suas Grandes Unidades a cavalo, evoluindo seu adestramento e tática de combate, puderam obter significativos resultados durante as operações.

A ação das Unidades a cavalo russas foram sentidas no leste, nas operações realizadas contra o XVI Exército Alemão, na frente de Staraya, a 500 Km ao noroeste de Moscou. Alí as unidades de cavalaria a cavalo tiveram uma de suas mais felizes atuações na manobra de ala, com seus incessantes ataques ao flanco e retaguarda do exército inimigo, para frustrar a retirada das tropas que queriam livrar-se do cerco e para evitar a chegada de suprimentos, contribuíram em grande parte para o aniquilamento de muitas unidades alemãs.

Ao iniciar-se a contra ofensiva russa no inverno de 1941, foram muito numerosas as intervenções da Cavalaria contra os flancos do adversário, demonstrando sua aptidão para deslocar-se sobre a lama e nas regiões nórdicas sobre o gelo, em cooperação com tropas de esquiadores.

Uma das missões em que a Cavalaria se mostrou mais eficaz foi na de incursão. Infiltrando-se pelos espaços existentes entre as forças naquelas frentes imensas, acertou fortes golpes no inimigo, surpreendendo postos de comando e estados-maiores em deslocamento e hostilizando, incansavelmente, as comunicações. Os comandos alemães tiveram de preocupar-se seriamente com estes audazes esquadrões, empenhando-se em exterminá-los, para isto localizando em todos os pontos importantes das estradas e pontes, fortes destacamentos dotados de muitas metralhadoras, os quais a Cavalaria russa logrou burlar facilmente, sem o temor de Ter de enfrentar uma Cavalaria equivalente.

Na perseguição, a Cavalaria russa atuou energicamente, apoiada pela aviação, tal como ocorreu na retirada das tropas alemãs na frente KALININTULA. Os alemães, por não terem Cavalaria, e por ser o terreno inadequado para o movimento de tropas mecanizadas, não tinham como impedir que as ações da Cavalaria russa.

Sem dúvida, em mais de uma ocasião, devido possivelmente ao descuido na preparação de seus movimentos, na seleção de uma zona de combate  ou à sua precipitação em lançar-se ao ataque sem o devido apoio de fogo, as Unidades de Cavalaria russa chocaram-se contra a resistência de seus adversários, que conservaram a serenidade apesar do ímpeto de suas cargas.

Outros países empregaram forças de cavalaria a cavalo durante a 2ª Guerra Mundial, destacando-se:

– a Bulgária, com várias divisões de cavalaria, apoiou apartar de 1941 o exército alemão na frente oriental;

– a China, onde Mao Tse Tung empregou entre os anos 1940 e 1941 11 divisões na frente norte e 3 na frente central, com efetivos aproximados de 100.000 cavaleiros;

– a Finlândia, que durante a guerra do inverno empregou mais de 8.000 cavaleiros;

– a França, em 1940, empregou 5 Divisões Ligeiras de Cavalaria, que estavam organizadas com tropas a cavalo, mecanizadas e motorizadas. Seus efetivos eram de 10.000, sendo 2.200 a cavalo. As unidades de cavalaria a cavalo eram de Couraceiros, Dragões, Caçadores a cavalo e Hussardos.

Na África a França empregou 5 Regimentos de caçadores da África, 7 Regimentos de Spahis Marroquinos e 1 Regimento Estrangeiro de Cavalaria, pertencente à Legião Estrangeira, e 6 Companhias de Remonta. Houve ainda uma unidade especial destacada na Síria, formada por circasianos, chamados “granpement callet”. Esta unidade possuía exploradores, carros de combate, elementos a cavalo e artilharia de campanha.

Uma das unidades maios famosas pela sua valentia e patriotismo foi a Brigada de spahis, formada por voluntários franceses e pessoal procedente das tribos beduínas. Esta unidade no início da campanha de 1940 esteve em Luxemburgo, no Somme, no baixo Sena e no Loire. Ao término da campanha, a Brigada Spahis foi a única unidade não derrotada no colapso geral. No exército da França Livre existiu uma unidade chamada “Goumiers”, que combateu na Itália, incorporada ao Corpo Expedicionário Francês do General Juin.

A Alemanha, apesar de ter empregado grande número de unidades blindadas em todas as frentes, manteve desde o início do conflito a 1ª Brigada de Cavalaria, constituída por dois regimentos a cavalo, com cinco esquadrões. Esta brigada provou sua capacidade na Campanha da Polônia. Mais tarde, mudou sua denominação para 1ª Divisão de Cavalaria, incorporando unidades de infantaria motorizada, de motociclistas, de reconhecimento e de montanha. Seu emprego não teve influência estratégica, mas foi empregada continuamente devido à sua mobilidade. Durante a guerra sofreu inúmeras modificações, de acordo com as necessidades do momento e a situação que vivia o exército alemão.

Os cavaleiros das unidades a cavalo alemãs estavam armados com fuzis 98 – K e com sabre, arma tradicional da Cavalaria. A 1ª DC Alemã esteve na Campanha da Holanda Oriental, assim como na França, cavalgando mais de 1.000 Km em marchas forçadas, havendo apoiado as ações das unidades blindadas do general Guderian. Em 3 de novembro de 1941, na data em que se comemora a festa de São Humberto, patrono da Cavalaria Alemã, a 1ª DC foi apeada, passando a constituir a 24ª Divisão de Cavalaria Blindada, integrando o 6º Exército, na Batalha de Stalingrado.

A Cavalaria a cavalo alemã atuou junto com unidades a cavalo da Hungria, Romênia e Rússia. Com respeito à Rússia, em 1943 foi criada a Divisão de Cavalaria Cossaca do exército alemão, sob as ordens do Ten Cel Panwitz. Esta unidade foi organizada com russos anticomunistas e quadros que pertenceram ao exército czarista. Seus cavaleiros estavam perfeitamente treinados e, inclusive, podiam manejar ou conduzir seu cavalo por meio da voz ou de assobio.

O exército alemão também contou com unidades de cavalaria a cavalo pertencentes às SS, chegando a formar uma força denominada “Divisão de Cavalaria SS Florian Grey”.

Durante a campanha contra a Rússia, os cavalos alazães, castanhos e pretos tiveram muitos problemas para aclimatarem-se, sendo que os pretos eram muito suscetíveis à fadiga. A cavalhada que deu melhor resultado na campanha russa foi a tordilha ou branca. Estes animais claros tiverem, entretanto, cerca de 75% de baixas, resultado da ação da aviação e artilharia.

A Alemanha empregou um corpo permanente de 5650 veterinários, chegando o serviço de veterinária a possuir 13.000 homens. As mulheres foram empregadas no adestramento dos animais e para ensinar os recrutas a montar a cavalo, em pequenos cursos nas unidades, até o escalão regimento.

Foi na Síria, em 1941, onde a Grã-Bretanha empregou o “Yeonmary Regiment”, sendo esta a última unidade a cavalo do Exército britânico. Seus integrantes estavam armados com sabres e rifles. A subunidade de apoio possuía metralhadoras Hotchkiss.

A cavalaria grega combateu contra as forças italianas, húngaras, romenas, búlgaras e alemãs. No princípio da guerra atuou com unidades convencionais e posteriormente, passou a empregar sua cavalaria como força irregular, atuando como guerrilheiros.

A Hungria, a terra dos Hussardos, combateu ao lado dos alemães na campanha contra a Rússia, dando contínuas provas de sua tradição militar a cavalo.

A cavalaria italiana combateu na Grécia em 1940 e 1941 e apoiou as operações contra os russos, criando o Corpo Expedicionário na Rússia. Na África manteve algumas unidades a cavalo, sendo o 14º Grupo de Cavalaria Colonial o que conquistou maiores louros para a Cavalaria Italiana, até ser destruído.

O Japão empregou a sua cavalaria contra a China, em operações na Península Malaia e na tomada de Singapura.

A cavalaria polonesa merece menção especial, pois contra toda a lógica militar e nem sacrifício inútil de homens e animais, recordou ao mundo a tradicional valentia do homem a cavalo, que se lança contra o que lhe ordenam, sem medir as consequências.

Uma de suas unidades mais famosas foi a Brigada de Cavalaria Wolynska, a qual, em 1 de setembro de 1939, entrou em contato com a 4ª Divisão Panzer e teve alguns êxitos parciais, havendo destruído 79 carros de combate e 74 veículos de tipos diversos. No dia seguinte lançou um “raide” contra as colunas blindadas da 1ª Divisão Panzer, distinguindo-se dias mais tarde na batalha que se travou próximo a Cyrusova e Wola. Posteriormente, foi derrotada pelos soviéticos no final de setembro, quando se deslocava para a fronteira Húngara.

O 18º Regimento de Ulanos, pertencente à Brigada de Cavalaria Ponovska, realizou a primeira carga a cavalo da 2ª Guerra Mundial, em KroKanty. As demais unidades polonesas realizaram a defesa de seu território, tanto contra os alemães contra os russos. No início da guerra contavam com cerca de 70.000 cavaleiros.

Ainda que algumas das unidades polonesas lograram realizar com êxito pequenas incursões e “raides” contra os países invasores, a maioria caiu derrotada.

Os Estados Unidos da América foi o primeiro país que realizou a mecanização de suas unidades de cavalaria a cavalo. Nos anos 30 foram criados os 4º e 6º Regimentos de Cavalaria, formando o “Horse – Mechanized Reconnaissance Regiment”, que transportava os cavalos das unidades em reboques tracionados por viaturas motorizadas. Quando chegavam a um obstáculo intransponível para as viaturas, os cavaleiros desembarcavam seus cavalos e prosseguiam no reconhecimento montados. Quando iniciou a 2ª Guerra Mundial, os americanos não deram a importância devida a esta unidade, realizando a motorização / mecanização de todas as unidades a cavalo.

A única unidade mantida a cavalo foi o 26º Regimento de Cavalaria, nas Filipinas. Esta unidade, estacionada a 85 Km de Manila, tomou parte nas dramáticas batalhas realizadas contra os japoneses.

A União Soviética foi o país que, na 2ª Guerra Mundial, teve as mais numerosas forças de cavalaria a cavalo. A cavalaria soviética esteve sob o comando do marechal Budenny, um antigo oficial da cavalaria czarista.

O emprego da cavalaria soviética foi realizado em operações onde poderia explorar ao máximo suas características de mobilidade e flexibilidade. Suas unidades atacaram os flancos e a retaguarda do inimigo, atuando principalmente contra as extensas linhas de suprimento alemãs, com milhares de quilômetros.

Uma das primeiras operações que participou a cavalaria soviética foi a invasão da Polônia, em 17 de setembro de 1939.

Em 1941 o Exército Vermelho chegou a possuir entre 26 a 30 Divisões de Cavalaria, que formaram a base para a defesa de Moscou. Foram famosos os golpes de mão e as incursões realizadas pelas unidades de cavalaria, atuando em grupos, como guerrilheiros, contra as forças alemãs em retirada.

Os alemães, pressionados pela inclemência do inverno e pelas forças russas, acabaram desenvolvendo táticas especiais contra os ataques de surpresa da cavalaria russa contra suas linhas de suprimentos, seus flancos e retaguarda, infligindo-lhe numerosas baixas. Devido à grande disponibilidade de efetivos, em função de sua grande população, os soviéticos recompletavam rapidamente suas baixas, impondo constante pressão sobre os alemães.

A base das unidades de cavalaria soviéticas foram os Cossacos, ainda que Stalin tivesse procurado destruí-los. Não havia, entretanto, na União Soviética, cavaleiros mais completos que os Cossacos para formar as grandes massas de cavalaria. Estes cavaleiros sempre representaram a cavalaria russa em todas as épocas.

Aos Cossacos se devem, em parte, a vitória sobre as tropas de Napoleão, durante a campanha contra a Rússia em 1812. Sua lealdade ao Czar era famosa, o que levou Stalin a tratá-los sempre com desconfiança, não empregando suas unidades nas operações de maior importância. Os Cossacos constituíram uma das forças básicas do Exército Vermelho, contribuindo para a derrota das forças alemãs em sua retirada, antes do término da 2ª Guerra Mundial.

16. A CAVALARIA NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Durante a 1ª Guerra Mundial os combates a cavalo se reduziram consideravelmente. Desde os primeiros encontros em agosto de 1914, a cavalaria francesa sofreu, como todo o exército, a revelação brutal da supremacia do fogo, realizando, contudo, reconhecimentos bem-sucedidos, que descobriram a presença do inimigo e fizeram numerosos prisioneiros, como o realizado a partir de 8 de agosto, quando o 23º Corpo recebeu ordem para internar-se na Bélgica, vindo a descobriu numerosas colunas inimigas, cujo movimento geral se realizou em 31 de agosto, dados de importância capital para o Alto Comando.

Com respeito à cavalaria alemã, tinha ordens de evitar a todo custo o combate, por esta razão, atuou uma única vez, contra um adversário em retirada no Sambre, na zona do Gran Morin.

O conflito, em determinado momento, se converteu em guerra de desgaste. O máximo emprego das armas de fogo, reforçadas por obstáculos artificiais, fez com que as frentes se estabilizassem, e por consequência, a cavalaria é organizada em unidades de Couraceiros o pé.

Em 1916 aparece o primeiro carro de combate, desenvolvido pelos ingleses. Com estes engenhos blindados a cavalaria começou a voltar às suas origens, demonstrando que era possível retomar-se a guerra de movimento. Embora alguns pensassem que somente com a aparição de uma nova Arma seria possível trazer para o primeiro plano a mobilidade na tática e na estratégia.

Ao impor-se o combate pelo fogo, a cavalaria incrementou sua valentia, confiando mais em seu coração. As batalhas foram travadas em frentes contínuas, desde os Vosges até o mar. Teoricamente havia passado a hora da cavalaria. Até que as posições inimigas fossem rompidas não haveria mais necessidade de empregar-se a cavalaria. Suas unidades passaram a combater a pé, algumas vezes constituindo “grupos ligeiros”, que lembravam os Dragões de Baraguey de Hilliers. Em 1915 e 1916, a cavalaria, cedeu grande parte de seus efetivos para a infantaria.

As exigências de um campo de batalha de quatro anos fizeram a cavalaria passar a ser empregada como simples infantaria. È interessante observar que a aparição de Grupos Ligeiros e Regimentos de Couraceiros a pé, foram mais tarde integrados a todas as Divisões de Cavalaria. Era a volta aos “soldados de cavalaria e dragões”, em vista das novas missões que a cavalaria poderia desempenhar nos campos de batalha, o que indubitavelmente, nos faz pensar na eventualidade de que o comandante se veria obrigado a “montar” estes sucessores dos Dragões.

Ao se organizar Grupos Ligeiros integrados por outras Armas, os Couraceiros a pé representavam uma solução de fortuna, nas quais a questão de efetivos e a camaradagem em combate eram fatores preponderantes. A auréola muito merecida que os rodeava, entretanto, não sobrepujou jamais a da cavalaria tradicional.

Durante o período 1915 – 1917, voltou-se a organizar, equipar e a instruir as Unidades de cavalaria a cavalo para o combate a pé pelo fogo. Em 1918 reapareceram as missões características da Arma: o reconhecimento, a segurança, a ação retardadora, o aproveitamento do êxito e a perseguição, particularmente nos momentos de crise, onde era necessário o sacrifício. O Alto Comando recorreu à cavalaria e a encontrou pronta, com os recursos que o momento o permitiam. Assim, se restabeleceram as Divisões de Cavalaria em Noyon, Moreuil Ailette e Flandres, Esquadrões Divisionários nos bosques de Villers Cotterets e em diversos outros pontos da frente. Em 11 de novembro, por fim, o clarim do armistício deteve a Cavalaria no momento em que iniciava a perseguição do inimigo, não somente como fizera a Brigada Ligeira de Lasalle e depois de Jena, mas sobretudo, pelo combate a pé, em ações sucessivas, como no tempo de Turena.

Cada país organizou sua cavalaria em diferentes tipos de Unidades. Assim, na Alemanha haviam os Couraceiros, Ulanos, Reitres (Saxônia), Dragões, Hussardos, Caçadores e Checeualers (Baviera). Na Áustria os Dragões, Hussardos e Ulanos. Na Itália os Lanceiros e Cavalegeri. Na Inglaterra os Couraceiros, Dragões, Lanceiros e Hussardos. Na França os Couraceiros, Dragões, Caçadores, Hussardos, Caçadores da África e Spahis. Na Rússia os Couraceiros, Dragões, Ulanos, Hussardos e Cossacos.

15. OUTRAS CAMPANHAS MUNDIAIS

Depois do auge que teve a Cavalaria na época napoleônica, os países se dedicaram a organizar seus exércitos de acordo com suas necessidades político – militares.

Durante este período houve algumas conflagrações de importância, como o ataque à Rússia realizado por forças franco-inglesas reforçadas por unidades turcas com o objetivo de capturar Sebastopol. Destaca-se nesta campanha a carga valorosamente realizada pela Brigada de Cavalaria Ligeira inglesa, que levando a cabo um sacrifício heróico, destruiu a artilharia russa mas foi destroçada pela cavalaria situada mais atrás, que com a carga de três de seus esquadrões pôs fim à vertiginosa carga inglesa.

Anos mais tarde, nos Estados Unidos, teve início a Guerra de Secessão, na qual as forças de Cavalaria Confederada, sob o comando de Stuart, Forrest, Morgan e muitos outros, tiveram maior preponderância sobre as forças da União, pois tinham melhor Cavalaria.

Sem dúvida, no aspecto tático, esta guerra trouxe pela primeira vez o emprego de fuzis raiados de tiro rápido, ao mesmo tempo que os canhões de retrocarga haviam surpreendido os soldados de cavalaria daquela época.

Em 1870 a Guerra franco-prussiana se caracterizou por Ter sido o último grande conflito em que a Cavalaria realizou cargas com grandes efetivos. As ações de Woerth, Mars-la-Tour e Sedan, nas quais a Cavalaria francesa atuou pelo choque a cavalo, demonstraram que havia passado o momento das operações táticas. Ao mesmo tempo, neste conflito, se comprovou que a Cavalaria era insubstituível na perseguição e na proteção da retirada. Seu papel estratégico aumentou com as missões de reconhecimento e segurança, principalmente na cobertura dos movimentos do grosso do exército.

No princípio do século XX iniciou-se a guerra russo-japonesa, na qual os contendores empregaram a Cavalaria, principalmente na batalha de Mukden, na qual manobraram forças valor Brigada Independente tanto da Cavalaria Cossaca como Japonesa.

Em algumas escaramuças a cavalaria cossaca empregou a lança, provavelmente para recordar as glórias passadas, saindo o Japão vitorioso ao final da contenda.

14. A CAVALARIA NAPOLEÔNICA

Napoleão Bonaparte deu um grande impulso à Cavalaria, empregando-a com acerto e aproveitando inteiramente suas possibilidades.

Recebeu uma Cavalaria produto da Revolução, na qual os Regimentos da monarquia francesa tiveram de ser reorganizados, pois eram formados geralmente pela nobreza e pela aristocracia, gente que, como era natural, era incapaz de cuidar de si só e de seus cavalos. Os primeiros chefes da Cavalaria Napoleônica foram de origem modesta, como o caçador Murat e o hussardo Ney.

Em 1798 a França tinha organizado 29 Regimentos de cavalaria Pesada, 20 Regimentos de Dragões, 23 de Caçadores e 11 de Hussardos. Os êxitos obtidos pelos Couraceiros franceses, que com sua dupla couraça chegaram a ser muito temidos, fez com que os prussianos e os russos voltassem a utilizar a couraça, da mesma maneira que os ingleses após Waterloo.

É bem conhecida a carga dos escoceses cinzentos contra a infantaria francesa, que destruíram uma brigada, capturaram um estandarte e passaram a fio de espada uma bateria de artilharia. Os Couraceiros e Lanceiros franceses contra-atacaram obrigando os escoceses a se retirarem com grandes perdas. É nesta época que a Cavalaria francesa coloca novamente em moda a carga realizada com lanças.

Com Napoleão os Dragões tiveram nova importância, no momento em que se decidiu reunir no campo de Bolonha os elementos que deviam servir para constituir o novo exército francês, determinando-se que os Dragões tivessem um campo especial em Compiegne e que recebessem também uma instrução particular. Napoleão confiou a direção do campo dos Dragões a Baraguey de Hilliers, e para demonstrar a importância que atribuía a esse poeto, tomou para si o título de Coronel General de Dragões.

A importância que o imperador atribuía aos Dragões a cavalo, se destaca em seguida na composição da Reserva Geral de Cavalaria, a qual confiou ao príncipe Murat. Ao lado de uma Divisão de Cavalaria Pesada e uma Divisão de Cavalaria Ligeira, foram organizadas quatro Divisões de Dragões a cavalo e uma de Dragões a pé.

O primeiro planejamento de Napoleão quando organizou o Grande Exército, incluía um desembarque na Inglaterra. Para esta expedição do outro lado do canal da Mancha, havia decidido empregar preferencialmente uma Divisão de Dragões, e para demonstrar a importância que atribuía a essa divisão, determinou que fossem escolhidos os soldados mais antigos e instruídos, melhores treinadas tanto a cavalo quanto a pé para integrá-la. Designou para comandá-la o próprio Baraguey de Hilliers. Os Dragões seriam embarcados sem os seus cavalos, por causa das restrições de transporte, mas determinou que se tomassem providências para que, logo após o desembarque, fossem procurados com urgência cavalos do país invadido para montar a Divisão de Dragões.

Os franceses, como é sabido, não lograram êxito em seu objetivo e, mudando seu planejamento, Napoleão se lançou contra as potências continentais. Os resultados são conhecidos: a marcha realizada sobre Ulm, depois sobre Austerlitz. Este é um exemplo magnífico de uma Cavalaria organizada por um comandante que tem confiança nela, em vista das missões próprias que decidiu confiar-lhe. Durante vinte e quatro dias serviu de vanguarda ao Grande Exército durante a passagem do Reno; explorou o flanco direito e cobriu o movimento envolvente das colunas convergentes até o Danúbio; depois arrojou-se bruscamente sobre a margem direita desse rio. Ao dispersar na Baviera, apoderou-se da linha de Lech; afirmou sua crescente superioridade sobre a cavalaria inimiga nos combates de Rain e de Wertengue, em 8 de outubro de 1805; triunfaram as manobras a cavalos coroados com o combate a pé dos Dragões; limpou o país entre Lech e o Iller; rechaçou o inimigo em Ulm; interceptou as comunicações da Praça do Sul; voltou a cruzar o Danúbio; tomou parte de forma brilhante nos combates travados abaixo de Ulm; fechou a linha de bloqueio a oeste e deslocando-se rapidamente para o norte, perseguiu, sem descanso, o exército do Arquiduque Fernando, destruindo partes desse exército em cada dia de marcha, e isolou os remanescentes próximo de Nuremberg.

Depois dos êxitos fulminantes do Grande Exército, o imperador ordenou a Murat que “inundasse” o país ao norte da Danúbio. Esta era uma idéia que perseguia desde 1806, quando no dia seguinte à dupla vitória de Jena e Auerstaedt insiste nestes termos: “Inundai com vossa Cavalaria a planície de Leipzig, em lugar de enviar unicamente alguns correios”.

Para “inundar”, o comandante da Reserva Geral de Cavalaria não tinha todas as suas divisões, mas o inimigo fraco e desmoralizado, sem contar com armas de fogo potentes, não pode deter os esquadrões exaltados que o perseguiam e atacavam com seus sabres, chegando a conquistar a praça forte de Stettin, que rendeu-se a uma Brigada de Cavalaria Ligeira.

Os Dragões, por considerarem desonroso apearem e combaterem a pé, pediram ao imperador que aligeirasse seu equipamento, para que pudessem combater como Cavalaria Ligeira, o que lhes foi concedido.

O imperador, ao mesmo tempo que satisfazia o amor próprio dos Dragões, satisfazia seus próprios desejos no que se refere à batalha; para dar um golpe decisivo no momento em que considerou psicologicamente adequado, precisou reunir toda a sua cavalaria. Por outro lado, as condições particulares de sua época, permitiam constituir uma Cavalaria  homogênea. Pode portanto, realizar um equilíbrio entre a energia própria do fogo, ainda lento do fuzil de pederneira, à energia de choque da Cavalaria. Tratou de fazer a balança pender para esta última, aligeirando-a e voltando a ser manobreira, mas ao mesmo tempo decidiu que toda a Cavalaria, compreendendo os Couraceiros, deveria ser dotada de armas de fogo. Os resultados obtidos pela Cavalaria Imperial demonstraram ser este o equilíbrio desejável para a Arma.

Em resumo, nos últimos anos do império foram adotadas, na Cavalaria, progressivamente, de todas as missões próprias das forças montadas. Nesta época o armamento permitia a homogeneidade que a Cavalaria avidamente desejava. Algumas vezes isto era resultado de um equilíbrio passageiro, que não implicava em nenhuma renúncia do combate pelo fogo.

A Cavalaria francesa até 1870 descuidou vários ensinamentos adquiridos pela Cavalaria Imperial, não conservando as lições que haviam sido legadas, referentes às missões de reconhecimento e segurança, nem levou em conta as relativas ao combate a pé. Não obstante, desde meados do século XIX os progressos do armamento de fogo haviam sido muito rápidos e seus efeitos continuaram a desenvolver-se até os dias atuais. O equilíbrio que tinha sido possível estabelecer-se na época do império logo se rompeu. Tanto a Cavalaria quanto a infantaria francesas estacionaram, não se preocupando com a evolução das táticas e do adestramento. Todos os esforços do exército francês estavam voltados para a organização do exército da África, que adotou os meios e os processos próprios de cada país inimigo que combatia. Nos demais conflitos que se envolveu, México, Crimeia e Itália, contou unicamente com a bravura de seus soldados. Assim terminou uma época de esplendor para a Arma de Cavalaria.

13. FREDERICO II O GRANDE E A CAVALARIA

Com Frederico II a tática prevalece sobre a estratégia, pois todos os movimentos preparatórios e as ordens dos comandos tem por objetivo organizar com rapidez a ordem de batalha.

Frederico II foi um grande entusiasta das cargas de Cavalaria, ao ponto de proibir o uso de armas de fogo pela Cavalaria, obrigando os cavaleiros a carregar sempre, a toda velocidade, usando exclusivamente armas brancas.

A Cavalaria estava composta por Couraceiros, Dragões e Hussardos. Os Couraceiros eram assim chamados por usarem uma couraça para proteger o tronco, eram armados de pistola e espada. Os Hussardos eram originários da Hungria e foram no início uma espécie de milícia irregular, cuja criação data da Segunda metade do século XV, de acordo com uma ordenança que obrigava a um homem em cada vinte, a prestar o serviço militar. Se denominavam Hussardos por que no idioma húngaro “huss” significa vigésima e “ar” pago. Os Hussardos formavam a Cavalaria ligeira, armados com pistola e espada.

Um Regimento de Couraceiros tinha cinco esquadrões de duas companhias de 70 homens cada uma. Cada regimento era constituído por 37 oficiais em comando, 70 oficiais comissionados e 12 trombetas. Os Dragões estavam organizados da mesma forma. Os Regimentos de Hussardos tinham dez esquadrões, mas estes eram menores que os de Couraceiros. Havia em cada Regimento de Hussardos 51 oficiais, 110 suboficiais e oficiais comissionados e 1200 soldados.

O General Seydlitz foi a alma da ressurreição da Cavalaria no século XVIII, fez dela uma Arma manobreira e ágil, adestrando-a em evoluções por esquadrões, regimentos e até divisões completas, facilitando assim o ataque de surpresa sobre o inimigo, no ponto mais fraco de suas linhas. A carga se iniciava ao trote e era efetuada ao galope.

12. A CAVALARIA NA SUÉCIA

Durante o século XVII, a maior parte dos exércitos europeus se utilizaram dos avanços científicos e sua aplicação na guerra. Como consequência lógica, apareceram nessa época inúmeras inovações táticas e houve uma significativa elevação do adestramento.

Este século produziu uma das figuras militares mais importantes do mundo, o rei Gustavo Adolfo da Suécia, um dos “Grandes Capitães” da história. Apoiado na pujança e vigor de seu reino, particularmente na produção industrial e agrícola e na exportação de armamentos, Gustavo Adolfo modernizou seu exército, principalmente a sua Cavalaria.

Reorganizou a Cavalaria, substituindo sua forma de combater, a base de ataques de cavaleiros armados com pistolas em carga a galope, empregando o sabre como arma principal e a pistola como secundária ao chegar às fileiras inimigas.

Novamente se voltou a fazer o emprego adequado da potência de choque e da velocidade, com isto, cumprindo dupla função tática: limpar o terreno para o avanço da infantaria e o choque decisivo no combate.

A Cavalaria de Gustavo Adolfo estava composta por Couraceiros armados com pistola e sabre e de Dragões, que eram mosqueteiros montados.

Uma das principais batalhas, onde a cavalaria foi decisiva, foi a de Breintenfield, na qual o próprio Gustavo Adolfo, no comando de 4 regimentos de cavalaria, dirigiu uma grande carga sobre a artilharia imperial alemã; uma vez capturada esta, manobrou e caiu sobre o flanco oeste do grosso do exército imperial, de Johann, conde de Telly. Apesar das forças alemãs haverem combatido bravamente, foram finalmente derrotadas e perseguidas pela cavalaria sueca.

Podemos dizer que Gustavo Adolfo foi o fundador da moderna escola tática, baseada na manobra. Seus triunfos se deveram principalmente ao grande treinamento que tinham suas tropas para carregar com velocidade e intrepidez.

Tão logo a primeira linha se chocava com o inimigo, disparavam suas pistolas e, em seguida, sabre em punho, rompiam a resistência inimiga. A segunda e terceira linhas reservavam seu fogo para quando as linhas inimigas fossem rompidas.

A introdução do choque violento na tática da cavalaria foi um grande progresso. Gustavo Adolfo, ao combinar o peso e a velocidade do cavalo com o armamento e a aplicação de massa de ruptura, colocou a cavalaria em seu verdadeiro papel. Desde os tempos de Alexandre e Aníbal a cavalaria não tinha voltado ao seu verdadeiro papel no campo de batalha.