Adeus ao Nobre Amigo

Texto de Gen. Ex R/1 Ênio Gouvêa dos Santos

(Revista do Clube Militar Nº 277/86)

“Preparar para montar! A cavalo!”

Esta voz de comando não mais será ouvida em nossas Unidades de Cavalaria. Melhor dizendo, apenas três Regimentos a ouvirão. Uma recente portaria do Ministro do Exército desativou as últimas unidades hipomóveis de nossa Arma, permanecendo apenas como hipomóveis os Regimentos de Cavalaria de Guarda: o Regimento Andrade Neves, o Regimento Osório e os Dragões da Independência:

Não há como discutir a lógica e o acerto da decisão ministerial.

Todos sabem que o cavalo não é mais a Akva; não é mais o meio de transporte do cavalariano; não é mais o elemento que dava a cavalaria uma supremacia de posição ante as outras Armas por possuir maior velocidade que o homem a pé, o que lhe permitia ao grosso dos exércitos, e, aprofundando-se no campo de batalha, executar suas seculares e eternas missões de reconhecer, cobrir e combater, permitindo às massas combatentes uma aproximação segura e a ocupação a coberto de posições ofensivas e defensivas.

Ao contemplarmos a evolução sofrida pela cavalaria, em face da evolução da estratégia e da tática, verificamos que permanecem inalteráveis as missões que de há muito lhe estão afetas; porém, o conceito de velocidade, potência de fogo, amplitude e profundidade das operações que a guerra moderna impõe fizeram com que a cavalaria passasse a utilizar elementos de combate mais velozes e de maior potência de fogo.

Esta transformação, como sabemos, se desenvolveu depois da I Guerra Mundial e se tornou fato decisivo depois da II Guerra Mundial com o emprego de unidades mecanizadas e blindadas. A Polônia foi o teatro do último emprego de grandes massas de cavalaria hipomóvel.

Tal transformação se chocava com vários séculos de tradição, relativamente ao emprego do elemento q lhe dava o nome. No entanto, a razão de ser das Armas são as missões que lhes incumbem e não os meios com os quais elas as cumprem, daí porque ao apearem de seus cavalos – deles se despedindo – e ao prepararem para substituir o comando de “a cavalo!” para de “embarcar”, é necessário que os cavalarianos de hoje mantenham vivo e imorredouro o Espírito Cavalariano.

Espírito que obtivemos montados sobre o dorso do nobre amigo, sentindo em nossas pernas e assento suas reações, em nossas mãos o atendimento às nossas indicações, sabendo que eram duas vontades presentes, ambas vivas, em que o homem procurava impor a sua à do “nobre bruto”.

Creio ser difícil aos atuais Chefes de Cavalaria incutir em seus jovens cavalarianos tal Espírito, como nossos Chefes fizeram, sem a presença do nobre amigo. Foi ele quem nos fez ser “nem melhores, nem piores, apenas diferentes”.

A criação e o desenvolvimento do Espírito Cavalariano é fruto de uma instrução adequada e objetiva. Tem sido trabalho de séculos. O paulatino melhoramento no cumprimento das missões características da Arma, no transcurso dos tempos, recolhido por sucessivas gerações de cavalarianos, foi sendo por elas modelado e aumentado.

As gerações de cavalarianos apreenderam o Espírito Cavalariano ao chegarem à Arma, em parte por já o levarem em seu íntimo, e, de outra, pelos exemplos dados por seus Chefes.

O oficial de cavalaria tem qualidades peculiares próprias. Nem melhor, nem pior que as outras Armas, mas inegavelmente diferente, como diferentes, entre si, são os que não são de cavalaria. Esta diferença nos foi proporcionada pelo Espírito Cavalariano.

Espírito formado pelo emprego e pela tática da Arma, pelo trabalho diuturno, pela instrução especial ousada, adquirida e ministrada, e, principalmente, pelo trato com o cavalo.

Quem até hoje não se emociona e entusiasma ao ver passar um Regimento de Cavalaria a cavalo, lanças com bandeirolas ao vento?

Quem nunca se inebriou em uma galopada em terreno variado, saltando valas e troncos, subindo e descendo barrancos, cruzando sangas e banhados?

Quem nunca experimentou a sensação de uma atropelada de dois cavaleiros, “paleta com paleta”, correndo a disparada na perseguição da pequena bola branca, em uma partida de pólo?

Quem nunca se emocionou ao ver na face do soldado o ar de felicidade pela “pista limpa” do cavalo a seus cuidados?

Quem nunca se embriagou e eletrizou ao participar do furacão de uma carga, espada ou lança em riste, com o vento a sibilar e escutando, em sua deliciosa e sublime embriaguez, o tropel da cavalhada e o gritos dos homens?

Quem nunca sentiu nenhuma dessas emoções, não foi de cavalaria!

Quem as sentiu e, até hoje, saudoso delas se recorda, mantém vivo o Espírito Cavalariano, que lhe foi proporcionado pelo nobre amigo.

A inteligência do homem com o cavalo, que permitiu a Gustave Le bon “degager et placer la perssonalité du cheval, en regard de celle de l’homme et perler de responsabilités partagées”, cria no oficial de Cavalaria uma modalidade especial no seu caráter, pois que não vê o nobre amigo como um ser rigorosamente irracional, mas, leva-o a esperar do animal apenas aquilo que ele pode proporcionar, seja por ter sido mal conduzido ou porque o homem não se faz por ele compreender.

Nas palavras do ilustre chefe Gen. Valentin Benício da Silva: “nesse comércio de idéias vê-se o cavaleiro inteligente impulsionar o animal no momento oportuno, contê-lo nos ímpetos exagerados, castigá-lo com energia, mas sem rancor, nas resistências manifestadas, afagá-lo com sincero carinho ao sentir-se por ele compreendido e ao ver satisfeitas as exigências impostas.

Desse comércio surgem reflexos do caráter do cavaleiro, reflexos que se manifestam no consórcio de ideias com os outros homens, nas suas maneiras, no seu modo de considerar os múltiplos fenômenos que se lhe apresentam na vida em sociedade. E quantas vezes – que o digam os especialistas em equitação -, pequenos traços dessa influência alcançam os membros de sua própria família, mesmo aqueles que nunca experimentaram a sensação de uma simples galopada.

É esse caráter próprio, inato ou adquirido, manifestado na juventude, cultivado na mocidade, conservado na idade madura, que faz o oficial de Cavalaria – sem lhes ser superior nem inferior – diferente dos oficiais das outras Armas.

Vamos agora desaparecer o cavalo de nossas Unidades de Cavalaria e preocupamo-nos com a conservação indispensável do Espírito Cavalariano, que dá ao combatente de Cavalaria o espírito de iniciativa, o arrojo, a audácia, a capacidade rápida de decisão, o espírito de sacrifício e de coragem.

Face à lógica inexorável do fato, cabe-nos apenas a esperança de que este Espírito seja mantido, para que nossa querida Arma continue a cumprir suas seculares e eternas missões, como o fez, com raro brilho, o Esqudrão Pituluga na II Guerra Mundial.

Despedindo-nos desse amigo – o cavalo –, em cujo dorso montávamos, que nos conduzia, e que levávamos para o perigo, para combater conosco sob a cruz, rendemos a ele o nosso preito de gratidão e saudade.

Gratidão por tudo que fez para que tivéssemos sempre latente o Espírito Cavalariano.

Saudade pelos momentos felizes e inesquecíveis que juntos desfrutamos.

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