As forças morais – O Chefe – Os quadros – A Tropa – Deveres no combate

(Texto retirado do Regulamento para os Exercícios e o Combate da Cavalaria. 2ª Parte, 1942)

58. O combate e, antes de tudo, uma luta moral. Em igualdade de força, valor técnico e organização material, a vitória caberá de modo definitivo, a quem conservar moral elevado.

Os fatores mais poderosos do bom êxito são:

– o patriotismo

– a honra

– a disciplina, que multiplica as forças, assegurando-lhe a coesão e o emprego consoante a vontade do chefe.

– o espírito de sacrifício e o desprezo ao perigo, que geram o desapego à vida, quando se trate dos interesses da pátria e da salvação do Exército;

– a camaradagem de combate, que faz que o homem se devote aos companheiros;

– a vontade de atuar, a tenacidade e a audácia; o espírito ofensivo de que todos devem estar animados, desde o cavaleiro que opera isolado, até o chefe de grandes unidades.

Alcançar o adversário, batê-lo e aproveitar o êxito até seu esgotamento completo devem ser sempre a idéia dominante.

A variedade de funções que cabem à cavalaria, a importância das missões que podem tocar até as menores de suas unidades e a necessidade, imposta a seus elementos, de operar em grandes frentes, sem ligações entre si ou com o comando, exigem em todos os postos da hierarquia compreensão prática e ampla do modo de conduzir as operações, sentimento militar esclarecido, espírito de iniciativa e amor das responsabilidades que caracterizam, em todas as eras, os verdadeiros cavaleiros.

O CHEFE

59. O chefe é a alma da tropa. É quem a prepara para o combate, a emprega e a conduz, em uma palavra -quem comanda.

A preparação física, intelectual e moral dos seus subordinados é a para ele incessante preocupação; a essa preparação deve dedicar-se inteiramente. Buscará conhecer com especial cuidado as qualidades naturais desses mesmos subordinados e esforçar-se-á por conservá-las, desenvolve-las e utilizá-las do melhor modo, de acordo com os acontecimentos.

A confiança da tropa adquire-a o chefe pelas qualidades que ele próprio evidencia em todas as circunstancias e, particularmente, no combate, como sejam: coragem, sangue frio, presteza de julgamento e de ação, nitidez de decisão, firmeza nas situações difíceis. A afeição dessa mesma tropa consegue-a pela justiça e benevolência com que exerce o comando, pelo zelo que assegura o bem estar dos subordinados e recompensa aos atos meritórios. A sua superioridade eqüestre dá-lhe uma auréola de prestígio, que muito contribui para robustecer-lhe a autoridade. O chefe cria, destarte, entre si e os homens, uma sólida ligação moral que supre no combate as inevitáveis interrupções das ligações materiais.

Em face de qualquer situação o verdadeiro chefe deve:

– saber o que quer;

– fazer com que os subordinados compreendam a sua vontade;

– não temer as responsabilidades conseqüentes de sua decisão.

Comandar é a mais bela das prerrogativas e também a maior das responsabilidades.

Para ser digno de suas atribuições, precisa o chefe patentear incontestáveis qualidades profissionais, como o conhecimento da tática das diferentes armas, o sentimento das possibilidades e o espírito de decisão. Deve sempre, e em toda a parte, dar o exemplo; necessita, enfim, e acima de tudo, possuir a maior de todas as qualidades: o caráter.

É no campo de batalha que se colhe o que o oficial semeou; quanto melhor ele houver servido antes, tanto maior será sua reputação de justo, de enérgico, de valente, de bom instrutor e de cuidadoso com os subordinados, tanto mais facilmente no campo da luta reunirá todas as vontades, enfeixá-las numa só, a sua (General de Bracke).

OS QUADROS

60. A força da cavalaria repousa, em grande parte, no valor de seus quadros.

Tendo muitas vezes de operar fora da ação direta dos chefes, os graduados de iniciativa, audácia e decisão. Estas qualidades preciosas são tradicionais na arma e precisam ser conservadas e desenvolvidas. Principalmente aos sargentos cabe o dever de honra de secundar em tudo os oficiais e de os avaliar das minúcias do serviço. Se os chefes desaparecem, eles se esforçam por substituí-los e continuar atuando no sentido das missões recebidas. Um quadro de sargentos instruídos, denodados e conscienciosos é, para a cavalaria, uma necessidade cada vez maior; nenhum esforço deverá ser desprezado para aumentar-lhe o valor.

A TROPA

61. As mais judiciosas concepções dos chefes, as mais belas qualidades dos oficiais e graduados não bastam para decidir a vitória, se o valor da tropa não atinge elevado grau de perfeição.

Para afrontar, sem desfalecimentos, as emoções da luta, o soldado deve, antes demais nada, possuir grande valor moral. A disciplina, a instrução e a habilidade no tiro, o treinamento físico, a aptidão de manobra e, acima de tudo, o espírito de sacrifício, são os elementos indispensáveis ao bom êxito. A essas qualidades, que o cavaleiro possui em comum com os camaradas das outras armas, é mister, ainda, ajuntar a habilidade eqüestre, que desenvolve a confiança e lhe permite todas as ousadias. A conservação das armas e os cuidados com o cavalo são para ele ação reflexa e habitual, apesar do acréscimo de fadiga que acarreta. A multiplicidade e variedades das missões individuais, inerentes a qualquer ação de cavalaria, exigem que o comando dedique atenção especial à formação moral do cavaleiro e ao desenvolvimento de sua personalidade. No decurso dessas missões, o cavaleiro isolado não terá o dever como guia, e é nesse sentimento que ele deve encontrar a energia indispensável para vencer todas as dificuldades.

DEVERES NO COMBATE

62. A cavalaria será quase sempre obrigada a combater para desempenhar integralmente as suas missões.

Todos os elementos – grandes unidades, destacamentos, cavaleiros isolados – devem estar animados desse espírito empreendedor, sem o qual os resultados são com freqüência incompletos.

Sejam quais forem os efetivos empregados e, a habilidade do chefe, a terá sempre, em frente de adversário de valor equivalente, de proceder da seguinte maneira:

– na ofensiva, lançar-se a fundo sobre o adversário, á arma branca, para rechaçá-lo, ou marchar ao assalto, a fim de expulsá-lo de suas posições;

– na defensiva, manter-se por tempo determinado, em posição e, depois, romper o combate, para novamente fazer face mais à retaguarda ou agarrar-se ao terreno, e aí deixar-se matar sem arredar pé.

Em todos os postos da escala hierárquica, o chefe deve estar compenetrado de que a primeira e mais bela de suas missões é dar o exemplo. Precisa orientar a energia de seus subordinados, para o fim que se quer atingir, e obrigá-los, se necessário, a obedecer. É ainda dever seu reagrupar os elementos dispersos, onde quer que se encontrem, e conforme o caso, reenviá-los às unidades ou empregá-los sob suas ordens.

Toda tropa cercada, qualquer que seja seu efetivo, deve lutar até o fim. Esgotada a munição tentará um último esforço, à arma branca, para libertar-se.

Há certas regras que todo soldado deve conhecer.

– a falta de ordens em nenhum caso justifica a inação;

– a iniciativa consiste em atuar na falta de ordens, segundo a vontade do chefe;

– se não existirem mais oficiais e graduados, o mais bravo assume o comando;

– o cavaleiro que as eventualidades do combate separaram dos companheiros, prossegue em sua missão, procurará juntar-se à sua unidade ou ao grupo combatente mais próximo;

– ninguém tem o direito, seja qual for o pretexto (socorrer ou acompanhar feridos, escoltar prisioneiros, reabastecer, etc.) de ficar ou de dirigir-se para trás, sem ter sido para isso designado pelo chefe;

– em nenhuma circunstância é permitido entabolar relações com o inimigo; qualquer tentativa nesse sentido feita por ele deve ser repelida pelas armas;

– o cavaleiro que cai prisioneiro pode dizer a sua identidade (nome, graduação, data e local de nascimento); guardará porem, silêncio absoluto com respeito às outras perguntas que lhe fizerem . Desse silêncio depende, muitas vezes, não só o bom êxito da operação que vai realizar-se mas, também, a vida de numerosos camaradas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.