Bota Velha “O Velho Borzega”

Velha bota estropiada,

de enfrentar tanta refrega,

és símbolo d’arma montada,

irmã do “Velho Borzega”.

Cano longo, curto, ou de fole,

vaqueta, couro e de cromo,

não tivestes vida mole,

nas andanças do teu dono.

Nas linhas do teu traçado,

n’altura do teu talão,

tens o cano esbranquiçado,

pelo suor do “amigão”.

Pois na cor preta desbotada,

em contato com os baixeiros

pulsa o coração da montada,

na união com o cavaleiro.

Hoje, não tão firme nos cascos,

recordo o passado onde mora,

tanta festança, o churrasco

que te brindei com uma espora.

E tu, faceira, elegante,

prenda desfilando em salão,

tocaste comigo para frente,

em parada, manobra, instrução.

Lembro quando eras bem nova,

ao ressoarem as trombetas,

enquadravas a montada para prova,

até que viessem as rosetas.

E se hoje, velha, te amolo,

é que muita tacada te devo,

nas pexadas, nas correrias do pólo,

que nem de lembrar eu me atrevo.

Mas… o tempo passou e de repente,

as baias viraram garagem,

se foi o culote, o rebenque,

os cavalos viraram miragem.

Mecanizado… se foi o tempero,

os potreiros, a carriére, o tropel,

os relinchos, da forragem o cheiro,

virou um silêncio o quartel.

Quando as tardes se vão, a largo,

sorvendo o meu chimarrão,

sinto, no relinchar do amargo,

a cincha da recordação.

Esporeado na Ilharga,

velho matungo invernado,

recordo a última carga,

que não respeitou o alambrado.

Ouço então dentro de mim

como lançaço, um toque repicar,

é uma ordem, quem resiste a um clarim?

Mandando o esquadrão avançar!

Te calço, Bota Velha, não te faças de rogada

não te dispenso, p’reste galope imaginário,

vejas nesta carga, em disparada,

lá na frente, vai Osório, o legendário.

Poesia do Cel Inf Pedro Américo Leal declamada pelo autor pela primeira vez em 24 de agosto de 1991, na reunião da Confraria dos Camaradas de Cavalaria – 3C – POA/RS.

Fonte: Era uma vez na Cavalaria – Geraldo Lauro Marques, Editora Alcance.