O cavalo que “Proclamou” a República

As repúblicas americanas devem, em geral, a sua independência a um herói nacional e a seu cavalo. Por isso, com justa razão, a posteridade reconhecida eleva monumentos a esses heróis e a seus cavalos homenageados juntos na estatuária oficial, como se pode ver nas praças principais das cidades do Continente. Merecida homenagem, decerto, àqueles cavalos ilustres; poder-se-ia dizer deles, ’’inda que mal comparando’’, o que disse Santa Joana D’Arc do seu estandarte, quando fez questão de tê-lo a seu lado na catedral de Reims durante a solenidade da sagração do Rei Carlos VII: “Já que partilhou os riscos, é justo que participe das honras”.

Convém, pois, à luz da História, identificar corretamente ambos os membros de cada binômio heroico, evitando que impostores reivindiquem uma glória imerecida.

Foi assim que revelei, nas Memórias de Coelho Netto, uma injustiça flagrante, urge corrigir aquele grande escritor, em um trecho reproduzido nas páginas da revista da Academia Brasileira de Letras, conta haver estado ao lado de Deodoro durante a jornada de 15 de novembro de 1889, e afirma que o marechal montava, naquela ocasião, “um fogoso ginete negro”, cujo nome, porém, é omitido.

Pois bem, esse cavalo é um impostor, apadrinhado indevidamente pelo ilustre escritor patrício. No dia em que ‘’a nação assistiu bestificada à Proclamação da República ‘’, na frase de um historiador contemporâneo, o Marechal Deodoro não montava um ‘’fogoso ginete negro’’, mas um mansíssimo cavalo baio, da cavalaria do primeiro regimento de cavalaria, mais exatamente o cavalo número 6, do 1º Esquadrão daquele Regimento; simples cavalo de tropa, ‘’cavalo raso’’, por assim dizer, nem sequer montada de oficial, quanto mais montada de general. Pela manhã, o marechal viera de sua residência em carruagem, sofrendo muito de reumatismo e de uma gota felizmente civil e não militar, ao quartel do Regimento, em São Cristóvão, para conseguir ali um cavalo. Os achaques do marechal fizeram escolher justamente o cavalo menos fogoso, o bom baio número 6, pois Deodoro, no estado em que estava, não só era capaz de ‘’bolear perna’’ por cima de um cavalo, como foi necessária a assistência de várias pessoas para içá-lo e empurrá-lo até a sela_ operação que haveria sido impossível se a outra parte interessada fosse um ‘’fogoso corcel’’, e não um pacífico maturrango.

Ainda conheci, em minha juventude, duas testemunhas oculares desta cena: o General Tasso Fragoso e o Marechal Ilha Moreira, ambos jovens oficiais então, servindo às ordens do Marechal Deodoro. Eu mesmo vi, 50 anos depois da Proclamação da República, uma pequena placa aposta junto à baia que fora ocupada meio século antes pelo imortal baio número 6, relembrando o seu papel decisivo na Proclamação da República.

Decisivo, pois sem ele o marechal estaria a pé: pode-se imaginar Deodoro, a pé e capengando, tentando, apoiado em uma bengala, galvanizar as tropas? Ou, pior ainda, estatelando-se na frente da tropa formada e do povo bestificado, derrubado ao chão por um cavalo menos dócil, menos republicano?

Pode-se aquilatar assim o papel importante, essencial mesmo, do baio número 6 na Proclamação da República.

A falta do cavalo competente pode comprometer irremediavelmente uma situação. Veja-se o Rei da Inglaterra, Ricardo terceiro, que Shakespeare nos mostra desamparado, a pé, no campo de batalha de Bosworth Field, implorando a gritos: “Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!” Não conseguiu o cavalo e perdeu a batalha, a coroa e a vida. E séculos mais tarde, em Waterloo, Napoleão a pé, sofrendo de hemorroidas, incapaz de montar, a guerra e o trono. Se houvesse estado a cavalo, à frente das tropas, dirigindo a batalha, como estivera em Austerliz, em Iena, em Wagran, talvez houvesse naquela noite entrando em Bruxelas nos calcanhares dos aliados em retirada. O duque de Wellington confessou mais tarde que “nunca estivera tão perto de ser derrotado”. É impressionante pensar do que dependeu o destino da Europa…

Sim, o cavalo é um fator indispensável em ocasiões semelhantes. Invoco, portanto, a musa Clio, e convido-a a inscrever em letras de ouro, na primeira página da história Republicana, a menção do bom baio número 6: que as trombetas da fama ressoem em sua honra, e que o anátema recaia sobre o negro e fogoso impostor que, nas páginas de Coelho Netto, pretendeu suplantá-lo.

Existia, aliás, no acervo do Itamaraty, um quadro representando Deodoro montando um cavalo baio; mas naquela grande tela o modelo equino era bastante idealizado, com fartas crinas ao vento e parecendo prestes a pôr fogo pelas ventas. Essas idealizações são costumeiras na pintura oficial; assim um quadro famoso de Gérard representa Bonaparte cruzando os Alpes montando, não um cavalo, mas uma mula de seguro pisar, afeita aos rudes desfiladeiros da montanha.

Assim é que se escreve, ou se pinta a História; mas é dever do historiador corrigir injustiças como a de Coelho Netto para com o bom baio número 6.

M. Pio Corrêa (Embaixador e oficial de Cavalaria)

Fonte: Revista do Exército Brasileiro Vol 135 – 2º Trimestre de 1997.

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